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Aproveitamos o interesse geral, no mês de março, pelo uso da água, divulgamos um vídeo produzido pela Organização para a Agricultura e Alimentação (FAO), da Organização das Nações Unidas (ONU), com uma forte influencia antropocêntrica, mas que revela, em parte, como se da o consumo desse elemento natural, essêncial a vida, não só humana.

Dia 11 de Dezembro de 2011, foi o Dia Internacional das Montanhas. Já passou, mas as montanhas, ainda, estão ai.

O  Dia Internacional das Montanhas, visa criar consciência sobre a importância das montanhas para a vida, destacar as oportunidades e constrangimentos no desenvolvimento das áreas montanhosas e construir parcerias que trarão mudanças positivas para as montanhas e terras altas do mundo.

Florestas de montanha saudáveis são cruciais para a saúde ecológica do mundo. Elas protegem as bacias hidrográficas que abastecem de água doce para mais da metade da população mundial. São também o lar de inúmeros animais selvagens, fornecem alimentos e outros insumos para o povo da montanha e são importantes fontes de madeira e produtos não-madeireiros. No entanto, em muitas partes do mundo florestas de montanha , ( como é o caso da Bacia Hidrográfica do Caçador  no estado de São Paulo)    estão sob a ameaça como nunca antes e desmatamentos em florestas tropicais de montanha continuam a um ritmo espantoso. Proteger estas florestas e ter certeza que elas são cuidadosamente geridas é um passo importante para o desenvolvimento sustentável das montanhas.( Fonte: FAO)

Proposta Rio+20 por Iguassu Iterei Centro de Referência do Movimento da Cidadania pelas Águas Florestas e Montanhas: http://www.uncsd2012.org/rio20/content/documents/713UNcsd2012ITEREI.pdf

Resumo

1. PES incentivos para a preservação de todas as zonas de montanha naturais

2. Alerta com dependência e vício aos  mecanismos de compensação

3. Sustentabilidade baseada em ecoturismo, pesquisa, arte, artesanato, sem indústrias poluentes, agroecologia e o conhecimento tradicional de montanha

4. Aumentar o diálogo entre os setores do governo e os níveis de governo

5. Apoiar uma sociedade civil mais forte

6. Aumentar o diálogo inter-institucional

7. Maior institucionalização de instrumentos de participação

8. Sensibilizar para as questões de montanha as agendas políticas

9. Consolidar ou criar iniciativas  específicas para montanhas  quando apropriado

10. Melhorar a mobilidade sustentável e a tecnologia sustentável para infra-estrutura nas regiões montanhosas

11. Melhorar os sistemas de conhecimento e informação

12. Melhorar os dados sobre desastres naturais da montanha

13. Aumentar a disponibilidade do conhecimento acadêmico e tradicional para determinados fins SMD ( Desenvolvimento Sustentavel de Montanhas) e  procesos de decisão

14. Coordenar as prioridades de pesquisa para a implementação SMD ( Desenvolvimento Sustentavel de Montanhas)

15. Consolidar ou criar iniciativas específicas para montanhas nacional e/ou regionalmente

16. Investigação e monitoramento dos mecanismos de adaptação às alterações climáticas, especialmente no que diz respeito à disponibilidade de água

17. ALERTA: A compensação financeira  ou a plantação de árvores não poderá  nunca  reproduzir o único delicado e altamente complexo sistema biológico natural de montanhas

Fonte: Iguassu Iterei Centro de Referência do Movimento da Cidadania pelas Águas Florestas e Montanhas e CEA.

Montanhas em Palms Springs, California, E.U.A, próximo ao Chino Canyon. Santa Rosa e San Jacinto Mountains National Monument. Foto: Antonio Soler/CEA

 

A Amazônia é a maior fonte de vapor continental do planeta, produzindo 7 trilhões de toneladas de vapor por ano. Grande parte da chuva que cai na América do Sul tem origem na floresta. Segundo o físico Paulo Artaxo, do Laboratório de Física Atmosférica da USP, quando o desmatamento atingir 20% da floresta, ela pode entrar em regressão. Sem floresta e sem umidade, as chuvas diminuirão. Parece claro. Porém, a visão mais comum no agronegócio brasileiro é a floresta como um inferno verde, que não produz nada. A marcha dos insensatos segue em marcha acelerada. O artigo é de Najar Tubino.

Najar Tubino

É uma marcha acelerada e envolve a produção de comida no planeta. O Brasil como um dos batedores, líder no agronegócio, com destaques para produção de soja e carnes, além de cana-de-açúcar (etanol). Um mercado que gerou US$88,3 bilhões de agosto de 2010 a agosto de 2011. Somente nos oito meses deste ano, foram US$61,5 bilhões, em exportações. O agronegócio é 40% do PIB se pegarmos todas as cadeias produtivas reunidas, enfim, vale mais que US$1 trilhão. E conta com uma bancada no Congresso Nacional poderosa. O mundo precisa de alimentos, muito embora quase a metade da produção de grãos brasileira – 148 milhões de toneladas no ano passado – seja de soja, a leguminosa mais influente do Planeta, de origem chinesa e que se espalhou pelo Brasil, a partir da região Sul, na década de 1970, e hoje se alastra pela Amazônia, tomando o sul do Amazonas.

Em termos mundiais o óleo de soja perde para o dendê (óleo de palma), 40 milhões de toneladas contra 45 milhões. O dendê é a soja da Ásia. Assim como o Brasil planta quase 25 milhões de hectares, a Indonésia planta 6 milhões de hectares de dendê, com projeto de chegar aos 20 milhões até 2020. Mesmo ano que a Índia espera ter 14 milhões de hectares de pinhão manso. Todos os três entram na composição de combustíveis vegetais. 

Enormes pressões
O biodiesel brasileiro é produzido com soja (80 %), em segundo lugar, com sebo bovino, que teve seu preço completamente alterado no mercado do boi, em função desse aproveitamento. São negócios paralelos, cada vez mais reforçam o poder da leguminosa. Seu subproduto mais conhecido é o farelo, usado na ração de aves e suínos, criados no sistema industrial, confinados, com produção intensiva – ciclos de 40 a 180 dias. Os chineses, em 2010, compraram 30 milhões de toneladas em grão do Brasil – 15% da exportação.

A China cresceu, trouxe trabalhadores do campo para a cidade, a renda se elevou, e o consumo de carnes deu um salto. Em 1980, o consumo médio era de 13,7kg, em 2005 foi de 59,5kg, a maior parte de carne suína, embora os chineses tenham importado recentemente 400 mil toneladas de carne de boi. Entretanto, a média mundial também subiu: de 30 kg para 41,2kg, no mesmo período, segundo os dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação).

A produção de carne mundial atingiu 228 milhões de toneladas em 2010. A previsão para 2050 é que duplique – 463 milhões de toneladas, com uma população de 9 bilhões de habitantes. Isso significa que o rebanho bovino crescerá de 1,5 bilhão para 2,6 bilhões de cabeças e o de ovinos e caprinos de 1,7 para 2,7 bilhões de cabeças. A FAO também divulgou um relatório sobre os impactos da pecuária sobre os ecossistemas do Planeta:

– Haverá enormes pressões sobre a saúde dos ecossistemas, a biodiversidade, os recursos em terras e florestas e na qualidade das águas. Os governos devem adotar medidas para reduzir o custo ambiental da expansão da pecuária… Os preços atuais das terras, da água e dos alimentos usados na produção de carne não refletem o verdadeiro valor destes recursos.

Rumo norte
Além disso, 18% dos gases estufa, principalmente o metano (CH4), liberado pelos animais no processo de digestão, serão originários da pecuária. O índice foi considerado exagerado pelas entidades setoriais do agronegócio e provocou um reboliço, na tentativa de contestar os dados. 

Na realidade, o economista inglês, Nicholas Stern, elaborou um relatório sobre a situação do Planeta comparando os vários setores da economia e projetando os impactos sobre os sistemas naturais, atribuiu o índice de 30% sobre a agropecuária, como resultado do crescimento até 2030. O problema é simples: ocupar espaço, derrubar floresta, mudar a condição do solo, usar adubos nitrogenados (todo o modelo agrícola está baseado no tripé Nitrogênio, Fósforo e Potássio, de origem química), implantando monoculturas e grandes criações.

Trata-se literalmente da marcha para o oeste que no meio do caminho pegou o rumo do Norte, simplesmente porque não há mais o que ocupar no oeste. A cana tomou o espaço da pecuária em São Paulo, e os rebanhos foram subindo em direção ao cerrado. Hoje, existem 70 milhões de cabeças nos três estados do Centro-Oeste, somente nos dois Mato Grosso, são mais de 50 milhões. A partir daí, os rebanhos entraram floresta adentro. O Pará em 10 anos, mais que dobrou o rebanho de 6 para 12,8 milhões (segundo dados do censo agropecuário realizado pelo IBGE em 2006). O número já deve ser muito maior. Aqui cabe uma explicação. O Brasil até a década de 1960 tinha um rebanho inexpressivo para o tamanho do país, com exceção do Rio Grande do Sul, onde o gado europeu estava bem adaptado.

Maior invasão
A grande mudança na pecuária brasileira também começou na década de 1960, quando um grupo de criadores do Triângulo Mineiro (Uberaba) foram à Índia, atrás de reprodutores zebuínos. Trouxeram várias raças, mas a que mais evoluiu foi a Nelore, de Masdra, sul da Índia. Entraram oficialmente até 1962, quando as importações foram proibidas, menos de 10 mil reprodutores. Porém, os zebuínos suportam o calor dos trópicos. São capazes de parir todos os anos, alguns tem uma vida reprodutiva acima de 20 anos. A segunda parte desta história está ligada a disseminação das braquiárias, um capim com muitas variedades, que tomou conta do cerrado e cresce onde ninguém consegue sobreviver. Elas vieram da África. Foram melhoradas pela Embrapa e fechou-se o motor do salto no rebanho, que atualmente beira os 200 milhões de cabeças.

Leia todo o artigo em: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18709

O próximo dia 21 de setembro será celebrado o Dia Internacional de Luta contra as Plantações (monoculturas) de Árvores. Várias atividades serão realizadas pelo mundo.

O Movimento Mundial pelas Florestas (WRM) organizará uma série de ações e também produzirá algumas ferramentas que serão úteis para aqueles que realizaram m atividades nesse dia ou próximo a esse dia.

Este ano foi declarado o Ano Internacional das Florestas pela Organização das Nações Unidas (ONU). A WRM iniciou uma campanha que impugna a definição de “floresta” usada pela Food and Agriculture Organization (FAO). Entre outras atividades, foi elaborada uma carta (abaixo), para a qual estão sendo coletadas assinaturas de profissionais em diferentes áreas relacionadas com o estudo da natureza. A carta será apresentada à FAO no próximo dia 21 de setembro.

Quem quiser aderir à mesma, basta enviar um email para: forest@wrm.org.uy (incluindo seu nome, disciplina, instituição e país) ou visite: http://www.wrm.org.uy/bosques/Carta_aberta_a_FAO.html

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A soberania alimentar como alternativa

por Esther Vivas

A globalização neoliberal, em sua trajetória para privatizar todos os âmbitos da vida, fez o mesmo com a agricultura e os bens naturais, submetendo à fome e à pobreza a uma imensa da população mundial. Calcula-se hoje que no mundo há 925 milhões de pessoas famintas, segundo dados da FAO, quando, paradoxalmente, se produz mais alimentos que nunca na História.

Como indica a organização internacional GRAIN, a produção de comida se multiplicou por três desde os anos 60, enquanto a população mundial foi apenas duplicada desde então, mas os mecanismos de produção, distribuição e consumo, ao serviço dos interesses privados, impedem aos mais pobres a obtenção necessária de alimentos.

O acesso, por parte do pequeno campesinato, à terra, à água, às sementes… não é um direito garantido. Os consumidores não sabem de onde vem aquilo que comemos, não podemos escolher consumir produtos livres de transgênicos. A cadeia agro-alimentar se alargou progressivamente, afastando, cada vez mais, produção e consumo; favorecendo a apropriação das diferentes etapas da cadeia por empresas agroindustriais, com a consequente perda de autonomia camponesa e consumidora.

Frente a este modelo dominante do agronegócio, onde a busca do benefício econômico se antepõe às necessidades alimentares das pessoas e ao respeito ao meio ambiente, surge o paradigma alternativo da soberania alimentar. Uma proposta que reivindica o direito de cada povo de definir as suas políticas agrícolas e alimentares, de controlar o seu mercado interno, de impedir a entrada de produtos excedentes através de mecanismos de “dumping”, de promover uma agricultura local, diversificada, camponesa e sustentável, que respeita o território, compreendendo o comércio internacional como um complemento à produção local. A soberania alimentar implica restituir o controlo dos bens naturais (como a terra, a água e as sementes) às comunidades e lutar contra a privatização da vida.

Para além da segurança alimentar
Trata-se de um conceito que vai para além da proposta de segurança alimentar, defendida pela FAO a partir dos anos 70 com o objetivo de garantir o direito e o acesso à alimentação a toda a população. A segurança alimentar não representa um paradigma alternativo ao não questionar o atual modelo de produção, distribuição e consumo, e tem sido, frequentemente, privada de seu significado original. A soberania alimentar, por sua vez, inclui esta proposta: garantir que todos possam comer, ao mesmo tempo em que se opõe ao sistema agro-industrial dominante e às políticas das instituições internacionais que lhe dão apoio.

Atingir este objetivo requer uma estratégia de ruptura com as políticas agrícolas neoliberais impostas pela Organização Mundial do Comércio, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, que corroeu a soberania alimentar dos povos a partir dos seus ditames de livre comércio, dos planos de ajuste estrutural, endividamento externo, etc. Frente a estas políticas, é necessário produzir mecanismos de intervenção e de regulamento que permitam estabilizar os preços, controlar as importações, estabelecer cotas, proibir o “dumping” e, em momentos de super-produção, criar reservas específicas para quando estes alimentos faltarem. Em nível nacional, os países devem ser soberanos no momento de decidir o seu grau de auto-suficiência produtiva e priorizar a produção de comida para o consumo doméstico, sem intervencionismo externo.

Afirmar a soberania alimentar não implica um regresso romântico ao passado, mas trata-se de recuperar o conhecimento e as práticas tradicionais, combinando-as com as novas tecnologias e os novos conhecimentos. Não deve consistir, tampouco, numa abordagem localizada, nem em uma “mistificação do pequeno”, mas em repensar o sistema alimentar mundial para favorecer formas democráticas de produção e distribuição de alimentos.

Uma perspectiva feminista
Avançar na construção de alternativas ao atual modelo agrícola e alimentar implica incorporar uma perspectiva de gênero. Trata-se de reconhecer o papel que as mulheres têm no cultivo e na comercialização daquilo que comemos. Entre 60 e 80% da produção dos alimentos nos países do Sul, de acordo com dados da FAO, recai sobre as mulheres. Elas são as principais produtoras de cultivos básicos como o arroz, o trigo e o milho, que alimentam as populações mais empobrecidas do Sul global. Mas, apesar do seu papel chave na agricultura e na alimentação, elas são, junto com as crianças, as mais afetadas pela fome.

As mulheres, em muitos países da África, Ásia e América Latina, enfrentam enormes dificuldades para ter acesso a terra, obter créditos, etc. Mas estes problemas não acontecem somente no Sul. Na Europa, muitas camponesas sofrem de uma total insegurança jurídica, já que a maioria delas trabalha em unidades produtivas familiares, onde os direitos administrativos são propriedade exclusiva do titular da unidade e as mulheres, embora trabalhando nela, não têm direito a ajudas, à plantação, a uma cota-parte, etc.

A soberania alimentar deve romper não somente com um modelo agrícola capitalista, mas também com um sistema patriarcal, profundamente arraigado na nossa sociedade, que oprime e submete as mulheres. Uma soberania alimentar que não inclui uma perspectiva feminista, estará condenada ao fracasso.

A Via Campesina
O conceito de soberania alimentar foi proposto pelo movimento internacional da Via Campesina, no ano 1996, coincidindo com a Cúpula Mundial sobre a Alimentação da FAO, em Roma. A Via Campesina agrupa 150 organizações camponesas de 56 países. Foi constituída em 1993, no início do movimento antiglobalização, e, progressivamente, se converteria em uma das organizações de referência na crítica à globalização neoliberal. Seu ascenso é a expressão da resistência camponesa ao colapso do mundo rural, provocado pelas políticas neoliberais e sua intensificação com a criação da Organização Mundial do Comércio.

A composição de membros da Via é bastante heterogênea, em termos de procedência ideológica e de setores representados (sem terra, pequenos camponeses…); mas todos coincidem em pertencer às parcelas camponesas mais golpeadas devido ao avanço da globalização neoliberal. Uma das suas conquistas foi a de superar, de maneira bastante satisfatória, a lacuna entre os camponeses do Norte e do Sul, articulando uma resistência conjunta ao atual modelo de liberalização econômica.

Desde a sua criação, a Via criou uma identidade “camponesa” politizada, ligação à terra e à produção de alimentos, construída em oposição ao atual modelo do agronegócio e com base na defesa da soberania alimentar. A Via encarna um novo tipo de “internacionalismo camponês” que podemos conceitualizar como “o componente camponês” do novo internacionalismo das resistências, representado pelo movimento altermundialista.

Uma opção viável
Um dos argumentos que utilizam os detratores da soberania alimentar é que a agricultura ecológica é incapaz de alimentar o mundo. Mas, contrariamente a este discurso, vários estudos demonstram que tal afirmação é falsa. Isso foi constatado pelos resultados de uma exaustiva consulta internacional promovida pelo Banco Mundial, em parceria com a FAO, o PNUD, a UNESCO, representantes de governos, instituições privadas, cientistas sociais, etc., concebida como um modelo de consultoria híbrida, com o nome de IAASTD, que envolveu mais de 400 cientistas e peritos em alimentação e desenvolvimento rural durante quatro anos.

É interessante observar, embora o relatório tivesse por trás de si estas instituições, que a conclusão é de que a produção agroecológica garante uma renda alimentar e monetária aos mais pobres , ao mesmo tempo que produz excedentes para o mercado, sendo uma melhor garantia para a segurança alimentar do que a produção transgênica. O relatório do IAASTD, publicado no início de 2009, apostava na produção local, camponesa e familiar, e na redistribuição de terras para as mãos das comunidades rurais. O relatório foi rejeitado pelo agronegócio e foi arquivado pelo Banco Mundial, embora 61 governos o tenham aprovado discretamente, com exceção dos Estados Unidos, do Canadá e da Austrália, entre outros

Na mesma linha, posicionava-se um estudo da Universidade de Michigan, publicado em junho de 2007 pela revista Journal Renewable Agriculture and Food Systems, que comparava a produção agrícola convencional com a ecológica. O relatório concluiu que as granjas agroecológicas eram altamente produtivas e capazes de garantir a segurança alimentar em todo o planeta, contrariamente à produção agrícola industrializada e o livre comércio. As suas conclusões indicavam, incluindo as estimativas mais conservadoras, que a agricultura orgânica podia fornecer, pelo menos, tanta comida quanto a que é produzida atualmente, embora os seus investigadores considerem, como estimativa mais realista, que a agricultura ecológica podia aumentar a produção global de comida em até 50%.

Vários estudos demonstram como a produção camponesa em pequena escala pode ter um elevado rendimento, ao mesmo tempo em que usa menos combustíveis fósseis, especialmente se os alimentos forem comercializados local ou regionalmente. Por conseguinte, investir na produção camponesa familiar é a melhor opção para lutar contra a mudança climática e acabar com a pobreza e a fome, garantindo o acesso aos bens naturais, ainda mais quando ¾ das pessoas mais pobres do mundo são pequenos camponeses.

No âmbito da comercialização, tem-se mostrado fundamental para quebrar com o monopólio da grande distribuição, apostar nos circuitos curtos de comercialização (mercados locais, venda direta, grupos e cooperativas de consumo agroecológico…), evitando intermediários e estabelecendo relações próximas entre produtor e consumidor, baseadas na confiança e no conhecimento mútuo, que conduzam a uma crescente solidariedade entre o campo e a cidade.

Neste sentido, é necessário que as políticas públicas se façam eco das demandas destes movimentos sociais e apóiem um modelo agrícola local, camponês, diversificado, orgânico e que se proíba os transgênicos, se promova bancos de terras, uma lei de produção artesanal, um mundo rural vivo… Finalmente, uma prática política a serviço dos povos e do ecossistema.

*Artigo publicado como epílogo do livro “Qué son los transgénicos” (O que são os Transgênicos) de Jorge Riechmann (RBA Libros, 2011).

** Tradução ao português: Tárzia Medeiros

+ informações: http://esthervivas.wordpress.com/portugues

É no mercado de valores que se comercializam alimentos e são determinados os preços dos mesmos para milhões de pessoas. Por conta disso, mesmo com a enorme quantidade produzida anualmente, suficiente para alimentar muito a atual população mundial, se desenha no horizonte que a próxima crise mundial será de outro tipo: uma crise de alimentos.

Especular com a fome: o mundo frente à próxima crise alimentícia

Por Michael R. Krätke

A história alguns já conhecem: um ambicioso jovem dramaturgo quer escrever uma obra sobre os gananciosos heróis do mundo das finanças. O escritor quer entender o que motiva seu herói. Mas ninguém pode explicar a ele que é o que decide o curso das bolsas de valores. A bolsa de cereais de Chicago se mostra incompreensível, cada razão apresentada é uma “montanha de grãos” através da qual não se consegue ver sequer os próprios atores implicados. O autor, Bertolt Brecht, se deu por vencido e começou a estudar Marx. Foi quando, em suas próprias palavras, compreendeu de verdade sua própria obra. Tudo isso ocorre em 1928, ano imediatamente anterior ao início da Grande Depressão.

Os negócios nas bolsas podem levar à morte. Porque no mercado de valores se comercializa também com alimentos e se determina o preço dos mesmos para milhões de pessoas. Em nossas latitudes, a pobreza não equivale morrer de fome literalmente. Mas para bilhões de pessoas a desnutrição é algo muito real. Igual a enorme quantidade de alimentos que são produzidos anualmente, suficientes para alimentar muito mais gente das que constituem a atual população mundial. Apesar de tudo isso se desenha no horizonte que a próxima crise mundial será de outro tipo: uma crise de alimentos.

Uma vez mais
Há poucos dias milhares de pessoas na capital moçambicana de Maputo protestavam contra o aumento do preço do pão e da energia. A polícia disparou contra os manifestantes. Houve no mínimo dez mortos. Já em 2007 e 2008 os preços dos alimentos aumentaram dramaticamente. O preço do trigo, do arroz e do milho triplicou, como não se via há 30 anos. O preço do arroz, por exemplo, aumentou quase 180% em menos de dois anos. Todos prestam atenção à crise financeira e bancária enquanto se inicia uma crise de alimentos de extensão inimaginável. Ao menos 120 milhões de pessoas vivem em condição de pobreza. Graças à globalização muitos países do Sul deixaram de exportar alimentos e devem importá-los. A fome faz com que motins explodam: revoltas já foram registradas em mais de 30 Estados.

Enquanto a Alemanha assegura que a economia está se recuperando, os preços do café, do cacau, do açúcar e dos produtos lácteos disparam em cadeia por todo o mundo. O mesmo vale para os futuros mercados de cereais, soja e arroz. Os principais centros comerciais se encontram em Nova Iorque (NYMEX/COMEX) e em Chicago, onde opera a Câmara de Comércio de Chicago (CBOT, em inglês) fundada em 1848, e a Chicago Mercantil Exchange (CME), fundada em 1898. Na Europa, os alimentos e matérias-primas se comercializam nas bolsas de futuros de Londres, Paris (Matif), Amsterdã e Frankfurt am Main (Eurex), também em Mannheim e, desde 1998, também em Hannover. Em toda parte se comercializam produtos agrícolas, mas não de maneira presente a natural, e sim a muita distância e em unidades especializadas. Os contratos de compra e venda se fixam para uma data determinada e no futuro recebem justamente esse nome: “futuros”. Assim se pode, por exemplo, comercializar cereais antes da colheita: um negócio especulativo com os ingressos e preços dos produtos agrícolas dos próximos meses.

O preço do pão
No final de 2007 os principais atores do mercado financeiro (não somente os hedge fonds) fugiram às pressas dos desequilíbrios causados pela crise financeira. As bolsas de mercadorias a futuros se viram abarrotadas e a conseqüência foi uma explosão do preço das matérias-primas e do petróleo. Inevitavelmente, aumentaram os preços de todas as mercadorias comercializadas nas bolsas de valores normais. Fundos como os criados pelos bancos subiram a outro patamar apesar da crise. Na Alemanha, o Deutsche Bank fazia publicidade aos investidores anunciando brilhantes perspectivas de ganho graças à alta dos preços de produtos agrícolas.

A ministra alemã de Agricultura, Ilse Aigner (CSU), anunciou recentemente que quer promover uma campanha contra a especulação abusiva nos mercados agrícolas no encontro agrário que será realizado em janeiro de 2011 em Berlim e também no encontro do G-20 em junho de 2011. Mas Aigner traiu suas próprias promessas rapidamente, pois até aqui não conta nem com propostas nem com conceitos. O tema é para ela “muito complexo”. E, além disso, e o governo federal o trata com calma. Porque em setembro de 2010 o pânico se dissipou novamente com uma ameaçadora bancarrota estatal na Grécia, Espanha e Portugal, de modo que o custo tanto dos empréstimos do Estado como as taxas de juros baixaram aos poucos. Mas até assim os especuladores, depois de pilharem os Estados, cada vez mais endividados, retornaram às bolsas de futuros para sobreviverem a base de comércio com alimentos e matérias-primas. Os chineses e os brasileiros experimentam pequenos milagres econômicos em seus respectivos países. Uma boa e abundante comida é um símbolo importante de status social, muito mais importante ainda que o automóvel. Uma razão a mais para verem lucrativas possibilidades de investimentos que sobretudo proporcionem ganhos rápidos: os agrofuturos satisfazem plenamente esse objetivo.

A aposentadoria dos especuladores
Em 2007 e 2008 houve mais colheitas de cereais na Austrália, um dos maiores exportadores de grãos do mundo. Em 2010, ocorreu uma seca catastrófica na Rússia. As perdas de colheitas dispararam o preço do pão em mais de 20% na Rússia. Se o governo de Moscou restringirá ou não o comércio – o primeiro ministro Vladimir Putin prolongou de imediato a proibição de exportação de grãos –, é algo que preocupa os especuladores em aposentadoria. Não se comercializa com todos os alimentos nas bolsas futuras, mas sim com os mais importantes para a nutrição da população mundial, como o trigo, o arroz, a soja e o milho.

As autoridades reguladoras da Commodity Futures Trade Comission (CFTC), que centra sua atenção nas bolsas de futuro dos EUA, constataram repetidamente que a determinação dos preços dos agrofuturos não tem nada a ver com a oferta e demanda nem as estimas de colheita e vendas. Os modos dos mercados fazem flutuar os preços radicalmente. Ainda que a produção de alimentos cresça pouco ou seja estanque, as cifras dos agrofuturos se multiplicam e se multiplicam. Se há alguns anos se comercializava ainda com umas 30 mil ações de futuros em trigo ao dia em Chicago, hoje subiram mais de 250 mil.

Obviamente os grandes senhores, como o Deutsche Bank ou o BN Paribas,  especulam com elas, mas não com seu próprio nome, e sim através de fundos especiais criados para isso, que especulam com um pacote de produtos agrícolas. Seus resultados dispararam meteoricamente nos últimos anos. Quanto mais especuladores se encaminham às bolsas, mais demolidores são os efeitos de sua atividade nos preços dos alimentos. Só 2% dos agrofuturos negociados conduzem a uma transação real das mercadorias – isto é: à entrega da mercadoria em troca de dinheiro antes que a data de contrato expire. Todo o resto é pura especulação – com o aumento ou a baixa dos preços – e só serve para o enriquecimento.

A dança de São Vito das bolsas
O índice de preços dos alimentos da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) calculou o preço de uma cesta com os alimentos mais importantes do planeta Terra, dos quais – ainda que nem todos sejam comercializados nas bolsas – aumentam seus preços sem aparentemente tocar o teto. Assim, nos países mais pobres aumentaram de 2007 a 2009 os preços dos alimentos entre 30% e 37% e em 2008 de novo entre 37% e 40%. Segue uma certa recuperação no verão de 2009, mas desde desembro de 2009 a tendência do índice da FAO aponta novamente para um aumento.

Os especialistas da FAO advertem sobre as cifras da próxima crise de fome, que dificilmente poderá ser freada. A especulação praticamente sem riscos nas bolsas de futuros é um negócio multimilionário e que necessita ainda de menos capital do que no comércio de ações. O negócio corrompe a existência de uma produção sustentável, porque em todo o mundo os camponeses tentam seguir o baile de São Vito das bolsas para poder conseguir ao menos os restos. Más notícias, pois, para os pobres desse mundo: eles pagam a conta do rally nas bolsas de futuros. E o fazem com milhões de famintos, com dezenas de milhares de mortos.

Michael R. Krätke, membro do Conselho Editorial de SINPERMISO, é professor de política econômica e direito fiscal na Universidade de Amsterdã, investigador associado ao Instituo Internacional de História Social dessa mesma cidade e catedrático de economia política e diretor do Instituo de Estudos Superiores da Universidade de Lancaster no Reino Unido.

Fonte Revista Fórum AQUI

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