Rio Grande/RS estabelece uma relação intrínseca com as águas. Foto: Antonio Soler/CEA.

A saúde dos oceanos – Grupo internacional de especialistas apresenta na revista especializada Nature o primeiro índice criado para medir o estado de preservação dos mares no planeta. Em uma escala de zero a 100, a média global é de 60. A nota do Brasil está um pouco acima: 62 pontos

Os oceanos cobrem três quartos da superfície da Terra, detêm 97% da água superficial do planeta e representam, em volume, 99% do espaço reservado à vida. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 3 bilhões de pessoas dependem da biodiversidade marinha e costeira para a subsistência. Além disso, a água potável, o alimento e até mesmo o oxigênio que o homem respira são fornecidos e regulados pelo mar, que, ao longo da história, foi um canal vital para o desenvolvimento do comércio e do transporte de mercadorias e pessoas. Não é à toa que cerca da metade da população mundial vive em regiões próximas ao litoral. Matéria de Marcela Ulhoa, no Correio Braziliense.

Se é impossível pensar em um ecossistema marítimo alheio à interferência humana, ao mesmo tempo, a saúde dos oceanos é fundamental para preservar uma das principais fontes de recursos vitais. Mas o que significa um oceano saudável? Como mensurar e desenhar a linha que divide uma utilização sustentável do ambiente de uma exploração desmedida e prejudicial? Até hoje não havia um indicador internacional que pudesse avaliar a qualidade do oceano nos mais diversos aspectos. Daí a importância do Índice de Saúde do Oceano, um projeto colaborativo que envolveu mais de 65 cientistas e especialistas ao redor do mundo e apresentado na edição de hoje da revista científica Nature. Do máximo de 100, o mundo alcançou nota 60. O Brasil, por sua vez, tirou 62, um pouco acima da média global (leia mais nesta página).

Para desenvolver a primeira avaliação quantitativa da relação entre o oceano e as pessoas, foram utilizados mais de 100 conjuntos de dados dos 171 países litorâneos. “A maioria das medidas existentes sobre a condição dos oceanos foca apenas o impacto negativo das pessoas sobre o mar ou mensura apenas uma questão de cada vez, como a poluição ou o abate excessivo de peixes. O Índice de Saúde do Oceano, entretanto, ressignifica essa abordagem de gestão, incluindo as pessoas como parte do sistema e da solução”, explica o principal autor do artigo, Benjamin Halpern, biólogo da Universidade de Santa Bárbara, na Califórnia. De acordo com o pesquisador, o homem tem de ser incluído nos cálculos, pois depende dos recursos marinhos para alimentação, proteção e trabalho.

Para chegar aos resultados, a ferramenta opera por meio de uma função matemática que relaciona as 10 principais metas públicas para o uso sustentável dos oceanos: provisão de alimentos, oportunidades de pesca artesanal, produtos naturais, o armazenamento de carbono, a proteção costeira, o turismo e a recreação, a subsistência e a economia, o sentido do lugar (identidade cultural relacionada ao mar), a limpeza das águas e a biodiversidade. Os dados foram construídos para permitir uma análise não somente biológica, mas também física, econômica e social de cada lugar. Isso porque, de acordo com o estudo, um oceano saudável é entendido como aquele que pode manter ou aumentar os benefícios para o homem (alimento e serviços) a longo prazo, sem comprometer a saúde ou a função da cadeia de vida que repousa no ambiente aquático.

Na primeira aplicação realizada em escala global, os pesquisadores encontram uma média global de 60 pontos. “Essa pode parecer uma pontuação bem ruim, mas devemos levar em consideração que essa é a primeira vez que aplicamos o índice. Por enquanto, nós só pegamos dados relativos às Zonas Econômicas Exclusivas (ZEE), ou seja, até 200 milhas náuticas. Isso não abrange, portanto, o alto-mar, mas só as zonas costeiras, que, normalmente, são as mais impactadas pela ação humana”, explica a pesquisadora brasileira Cristiane Elfes, que faz parte da equipe internacional que desenvolveu o indicador.

A pesquisa também mostrou que os países desenvolvidos apresentaram, na maioria dos casos, resultados melhores do que os em desenvolvimento. “As diferenças surgem mais do fato de que os países desenvolvidos tendem a ter economias mais fortes e mais recursos para aplicar na gestão e proteção ambiental, e isso ajuda a aumentar a pontuação do índice”, explica Halpern. O pesquisador ressalta que esse, no entanto, não é um padrão geral, já que há muitos países em desenvolvimento que pontuam bem, como o caso de Seychelles, e muitos países desenvolvidos que marcam mal, como a Polônia.

Guia para melhorar
Para Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), o estudo é inovador por possibilitar uma discussão sobre a avaliação da qualidade do ambiente marinho. No entanto, ele aponta para o problema da qualidade dos dados utilizados pelo indicador. “Se você pensa em um país desenvolvido, como os do Hemisfério Norte, por exemplo, você tem uma situação confortável, pois eles já têm um levantamento prévio das 10 metas utilizadas pelo índice. Em outros países, porém, há uma deficiência no levantamento de dados”, analisa.

A qualidade dos dados nas mais diversas regiões é um ponto de ruído que também foi destacado pelos próprios cientistas envolvidos na elaboração do novo índice. Entretanto, eles afirmam que, mesmo assim, o método é eficiente e serve como um guia para negócios e implementação de políticas públicas. Segundo Cristiane Elfes, o índice tem o objetivo maior de apontar possíveis formas de melhorar a saúde dos mares. Os esforços de melhoria, inclusive, já começaram. Há menos de uma semana, o secretário da ONU, Ban Ki-moon, lançou o Pacto para os Oceanos, com a meta de que 10% das áreas marítimas e costeiras estejam sujeitas a medidas de conservação até 2020, além de reunir ações para frear a poluição, a pesca excessiva e o aquecimento global.

Sobre a possibilidade de o novo indicador ajudar nas metas propostas pela ONU, Halpern é enfático: “O índice fornece uma ferramenta crítica para avaliar, justamente, se essas ações produzem melhora significativa e tangível na saúde do oceano global. Quando nós recalcularmos as pontuações do índice global nos próximos anos, seremos capazes de ver se essas ações fazem a diferença”.

O país está em 35º no ranking
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2012/8/16/o-pais-esta-em-35o-no-ranking
No ranking mundial de qualidade dos oceanos, o Brasil aparece no 35º lugar, entre 171 países analisados. Se não forem consideradas algumas ilhas desabitadas que também entram na lista, o país sobe para a 27ª posição. No geral, o Brasil obteve nota 62, enquanto a média global foi 60. Segundo a pesquisadora, a nota 100 indica uma exploração saudável dos recursos marinhos. No caso dos pescados, por exemplo, um 100 revelaria que uma nação consegue pescar o suficiente para alimentação humana, mas sem praticar a extração predatória.

Apesar de ter ficado um pouco acima da média global, o Brasil apresenta resultados específicos que surpreendem. Em relação à densidade de turistas nas áreas costeiras — que avalia se o número de visitantes é bom o suficiente para estimular a economia, mas não para degradar os oceanos — a nota alcançada foi zero. A média global para esse item foi de 10 pontos, o que também é considerado baixo.

“O zero realmente espanta, ainda mais se você pensar que o Brasil tem uma costa bem larga e que alguns de nossos principais cartões postais são as praias”, diz a pesquisadora Cristiane Elfes. Segundo ela, a nota pode ser explicada pela restrição e má qualidade dos dados disponíveis sobre o turismo no país — atualmente, um dos principais indicadores são as chegadas internacionais no território brasileiro.

Ítalo Mendes, diretor do Departamento de Estruturação, Articulação e Ordenamento Turístico do Ministério do Turismo, discorda. Para ele, a baixa pontuação não é resultado da falta de dados disponíveis no país sobre o número de turistas nas áreas costeiras, mas sim da forma como o cálculo foi realizado. “Eles contabilizaram o número de estrangeiros que entram no país em relação ao número total da população brasileira. Com essa abordagem, até mesmo os Estados Unidos ganharam uma pontuação referente a 1, o que nos faz pensar se o problema não está no método.” Mendes afirma que, anualmente, o MTur faz o levantamento da chegada de turistas internacionais nos principais aeroportos de cidades costeiras e também traça o perfil deles.

A dificuldade de aquisição de dados, porém, é ressaltada por Alexander Turra, da USP, em ou-tros setores. “Temos várias políticas públicas no país voltadas para a preservação dos oceanos, mas muitas vezes não conseguimos ter ideia de seus resultados, se melhorou ou piorou, porque não temos como fazer a mensuração sistemática desses dados.”

Falhas
Para Elfes, algumas pontuações baixas obtidas pelo Brasil indicam uma exploração insustentável dos recursos naturais. De acordo com Elfes, é isso que ocorre com a provisão de alimentos (capacidade de recolher comida do mar de forma sustentável — nota 36) e exploração de produtos naturais, como esponjas, conchas, corais etc. (nota 29). Apesar de ter alcançado os 76 pontos no quesito “água limpa”, que tem como alvo a poluição zero, o Brasil ficou abaixo da média global, que foi de 78. Em seis das 10 metas, entretanto, o Brasil obteve pontuação igual ou maior do que a média global.

Fonte: EcoDebate

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