Como se já fosse parte da natureza, a atual época do ano em São Paulo é conhecida como a da poluição atmosférica, acarretando aumento de adoecimentos e internações em sua já combalida rede de saúde. Causa de cerca de 4 mil mortes prematuras por ano, o atual estágio de poluição da cidade se encontra em níveis que precisam despertar uma imediata consciência na população, a fim de que se exija dos políticos o mínimo projeto de reversão dessa espiral que atenta cada vez mais contra a vida de seus habitantes.

Sem mencionar diretamente os interesses político-econômicos que impedem a cidade de ser administrada em função da qualidade de vida das pessoas, ela lamenta a consciência ainda baixa do público a respeito do assunto.  Ressalta que, ao contrário do que a maioria pensa, a poluição acima dos níveis recomendados pela OMS não causa apenas doenças respiratórias. “Se temos um dia muito poluído em termos de material particulado no ar, dois dias depois aumenta o número de pessoas com infarto na cidade”.

Como principal argumento para a imposição urgente de novas políticas para o desenvolvimento da cidade, Evangelina lembra o enorme passivo gerado para a sociedade em função dos mais diversos custos “invisíveis”, aqueles menos considerados quando se discute o problema da poluição. No entanto, lembra que o custo gerado pelos tratamentos médicos já seria motivo suficiente para justificar uma série de políticas de recuperação da qualidade de vida e do ar na Paulicéia, casa de 10% dos brasileiros.

Correio da Cidadania: Que quadro a senhora desenha a respeito da qualidade do ar em São Paulo?

Evangelina Vormittag: Bom, a situação da qualidade do ar de São Paulo é ruim, tanto pela questão da presença dos poluentes como pela questão de estarmos no inverno e contar com outros fatores, como a baixa umidade e a inversão térmica, o que piora ainda mais o ar. Mas independentemente disso, as concentrações de poluentes estão acima do preconizado pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

Correio da Cidadania: O que levou a metrópole a chegar a esse ponto alarmante e cada vez mais nocivo à vida das pessoas em termos de poluição atmosférica?

Evangelina Vormittag: Eu creio que o grande motivo é o transporte. Acho que a quantidade de carros em circulação é enorme e isso permite a presença da maior parte dos poluentes presentes.

Em relação aos carros, são vários fatores, pois além de tudo são hábito já cultural na cidade. Vamos supor que tivéssemos uma campanha educativa que orientasse as pessoas a não usar o carro, mudar o costume. Infelizmente, não teríamos tal opção, pois o certo seria um transporte público que pudesse ser usado de fato, com uma inter-comunicabilidade entre os diversos modais de transporte. Por exemplo: eu deixo meu carro perto de uma estação de metrô e pego outro transporte pra ir ao meu destino.

Porém, o paulistano não tem essa opção, por mais que ele queira não é possível, ficando sem opção de substituir seu modo de transporte. Sabemos que existem alguns esforços, como os corredores de ônibus, aumento de linhas de metrô, mas sabemos que não dá pra entrar num trem às 6 da tarde, há bairros que não têm metrô nem trem, não há mobilidade na cidade…

Correio da Cidadania: Dessa forma, o fim da política de incentivo ao uso do carro é o ponto mais central e imediato na reversão dessa lógica que tem asfixiado a cidade?

Evangelina Vormittag: Sim, tendo outro transporte como opção. Não se pode pedir para as pessoas deixarem o carro – aliás, elas podem estar mais conscientes do que se imagina quanto a isso – e não oferecer nada.

É preciso partir para algumas coisas diferentes, como transporte compartilhado, com estímulos a esse tipo de iniciativa. É uma das poucas opções que vejo em condições de ajudar mais imediatamente: o transporte compartilhado.

Além, obviamente, de se melhorar o transporte público, pois, enquanto ele não for ‘competitivo’ com o carro, fica difícil…

(Nota: no dia seguinte à entrevista – quarta, 3 – o governo federal anunciou novo pacote de incentivos à indústria automobilística, o segundo desde a crise financeira mundial iniciada em 2008).

Leia a entrevista completa AQUI

Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania.

Fonte: EcoDebate

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