Climatologistas descrevem a seca como “um desastre que se arrasta”, porque seus efeitos não são sentidos de imediato. Enquanto isso, a expectativa é que a demanda mundial por água cresça em dois terços até 2025, e as Nações Unidas temem uma “crise iminente de escassez de água”

[Por Alex Prud’Homme, The New York Times/Folha de S.Paulo]

Enchentes, tornados, terremotos, tsunamis e outros fenômenos meteorológicos extremos deixaram uma trilha de destruição no primeiro semestre de 2011. Mas tudo isso pode ter sido apenas o começo de um ano notável pelo mau tempo.

O próximo problema da lista é a seca.

Na região sul dos Estados Unidos, 14 Estados estão agora “assando” – desde o Arizona, que está combatendo o maior incêndio de sua história, até a Flórida, onde incêndios destruíram cerca de 81 mil hectares até agora. O mais grave é que, diferente de terremotos e fenômenos que se deslocam rapidamente, como furacões, as secas podem tornar-se a condição permanente em algumas regiões.

Climatologistas descrevem a seca como “um desastre que se arrasta”, porque seus efeitos não são sentidos de imediato. Enquanto isso, a expectativa é que a demanda mundial por água cresça em dois terços até 2025, e as Nações Unidas temem uma “crise iminente de escassez de água”. Para prevenir uma emergência desse tipo, precisamos redefinir como pensamos a água, a valorizamos e a consumimos.

A grande aridificação de 2011 começou no outono (do hemisfério norte) passado; em muitos Estados americanos, a temperatura tem passado dos 37 C° por dias a fio. Um sistema de alta pressão ficou estacionado sobre o meio do país, bloqueando a chegada de ar mais frio vindo do norte.

O calor provocou 138 mortes no ano passado, mais que os furacões, as enchentes e os tornados, e ressecou a vegetação de cerrado, tornando-a vulnerável a relâmpagos e descuidos humanos. Cerca de 40 mil incêndios este ano já devastaram 2,3 milhões de hectares em todo o país -e o calor forte de agosto provavelmente deixará a situação pior antes que haja alguma melhora.

Richard Seagar, que analisou registros históricos e projeções de modelos climáticos para o sudoeste do país para o Observatório Terrestre Lamont-Doherty, na Universidade Columbia, afirmou: “Não é possível chamar isso de estiagem, realmente, porque isso implicaria uma modificação temporária. Os modelos apontam para uma aridificação progressiva. Não dizemos que ‘o Saara está passando por uma seca’. É um deserto. Se os modelos estiverem corretos, o sudoeste do país vai enfrentar um processo de ressecamento permanente.”

O aumento da população vem intensificando a pressão sobre as fontes de água. Há mais pessoas do que nunca no planeta, e em muitos lugares a água vem sendo consumida em ritmos insustentáveis.

Mudanças culturais contribuem para exercer efeitos sutis e de longo alcance sobre as fontes de água. Em 2008, pela primeira vez, havia mais pessoas vivendo em cidades que em comunidades rurais em todo o mundo, e a água vem se urbanizando. Mas algumas das maiores cidades do mundo -Melbourne, Barcelona, na Espanha, e a Cidade do México- já sofreram emergências por falta de água.

O ressecamento adicional pode levar a novos tipos de desastres. Considere-se o caso de Perth, na Austrália: sua população passou de 1,7 milhão de habitantes, ao mesmo tempo em que a precipitação diminuiu. Os planejadores urbanos temem que, se não forem tomadas medidas drásticas, Perth possa se tornar a primeira “cidade fantasma” do mundo – uma metrópole moderna abandonada por falta de água.

Destinos semelhantes talvez aguardem as cidades americanas em pleno crescimento situadas em regiões desérticas: Las Vegas, Phoenix ou Los Angeles.

Nossa resposta tradicional ao ressecamento tem sido a de construir infraestrutura hídrica: barragens, tubulações de água, aquedutos, diques. Muitos defendem a construção de barragens ainda maiores e projetos de encanamento de grande envergadura, incluindo um que propõe a captura das águas de inundações do Mississippi e seu desvio para o oeste ressecado.

Hoje, porém, acredita-se amplamente que os projetos de desvio hídrico são caros, ineficientes e ambientalmente destrutivos. Os administradores de recursos hídricos estão à procura de uma fonte de água que seja à prova de estiagens. O controle climático, ou semeadura de nuvens, é uma ideia atrativa.

Quando químicos descobriram que gelo seco jogado dentro de nuvens produzia neve, e que nuvens “semeadas” com iodeto de prata produziam chuva, eles se maravilharam, achando possível acabar com as estiagens. Sob condições perfeitas, o controle climático pode elevar a precipitação entre 10% e 15%. A China afirma que entre 1999 e 2006 produziu 36 bilhões de toneladas métricas de chuva por ano.

Mas críticos, entre os quais o Conselho Nacional de Pesquisas, questionam a eficacia do controle climático. Embora as evidências sugiram que ele funciona até certo ponto, é pouco provável que possa gerar uma fonte importante de água no futuro próximo.

O oceano é uma fonte mais promissora. Há séculos as pessoas vêm sonhando em converter a água do mar em uma fonte ilimitada de água doce. Até 2008, mais de 13 mil usinas de dessalinização em todo o mundo produziram bilhões de galões de água por dia. Mas a água dessalinizada tem custo alto e é ambientalmente controversa.

A água residual, ou de esgoto, oferece uma fonte interessante, embora esteticamente questionável, de água potável. Os defensores descrevem a água de esgoto reciclada como sendo “do chuveiro às flores”; para seus detratores, esses esquemas são “da privada para a torneira”. Os planos para a reciclagem de água de esgoto vêm ganhando aceitação lentamente. Windhoek, na Namíbia -um dos lugares mais secos do planeta- depende exclusivamente de água tratada para suas reservas de água potável.

Em El Paso, no Texas, 40% da água que chega às torneiras é de esgoto reciclada. Fairfax, na Virgínia, recebe 5% da água da reciclagem de esgoto. Cingapura é um exemplo notável: nenhum outro país usa água com tanta parcimônia. Nos anos 1950 Cingapura enfrentou o racionamento de água, mas na década de 1960 ela construiu um sistema de fornecimento de água dos mais sofisticados no mundo.

Hoje 40% da água consumida em Cingapura vem da Malásia, enquanto 25% a 30% é fornecida pela dessalinização e a reciclagem de águas residuais; o restante vem de fontes que incluem a coleta em grande escala da água de chuva. A demanda é limitada por tecnologias eficientes e impostos sobre a água.

O mais importante de tudo é que a água do país é administrada por uma autoridade hídrica politicamente autônoma, sofisticada e bem financiada. Graças a isso, o consumo de água per capita em Cingapura caiu de 165 litros por dia em 2003 para 154 em 2011.

Os EUA é um paíse maior e mais complexo. Poderia adotar medidas básicas como instalar medidores de água inteligentes, identificar vazamentos, coletar a água da chuva e reciclar esgotos em grande escala. Os relatos do Novo México, Texas, Louisiana, Geórgia e Flórida, mostram que continuar como sempre foi feito não é uma opção.

Alex Prud’Homme é o autor de “The Ripple Effect: The Fate of Fresh Water in the 21st Century.”

Artigo [Drought: A Creeping Disaster] do New York Times, na Folha de S.Paulo

EcoDebate, 26/07/2011

Anúncios