Lagoa dos Patos, de onde vem parte da água que bebemos no RS. Foto Cíntia Barenho

por Tania Faillace*

A proposta de cobrar o uso da água bruta, leva inevitavelmente a perguntar:

A quem pertence a água na natureza?

Água, sol, chuva, chão, ar, são bens naturais, à disposição e desfrute de todos os seres vivos, humanos, animais e vegetais. Não podem ser considerados mercadorias, uma vez que não contêm em sua produção o valor do trabalho humano.

Isso vai verificar-se apenas quando há incorporação desse trabalho no produto final, como seja, a água tratada para consumo humano, ou o uso do solo como insumo básico da produção agrícola ou construtiva.

O desvario de nosso capitalismo, pós-industrial, de regresso ao arcaísmo mercantilista ao que parece, pretende usurpar o uso, posse, e propriedade dos bens naturais, tornando-os mercadorias com valor monetário, e, portanto, ao alcance apenas daqueles em condições de pagá-las.

E não me venham dizer que é a própria coletividade a proprietária desse bem, pois será essa coletividade intimada a pagar um plus para usar o que é legitimamente seu, como é legitimamente de qualquer outro ser vivo, já que não existe vida sem água.

Supomos que se prepare uma guerra da água também no Brasil, como houve há poucos anos na Bolívia, em que uma empresa privada estrangeira, fazia-se pagar pela água retirada do poço doméstico pelas famílias que haviam cavado o poço.

Imoral e insano. Se há desperdício de água, que haja fiscalização e as multas adequadas. Na água distribuída em área urbana, já há cobrança do que seria um excesso de consumo, além da tabela prevista.

Agora, embutir no preço do trabalho de tratamento de água e sua distribuição, o preço da água bruta, que ninguém trabalha nem produz, é INDECENTE!

Mais um pouco, e seremos instados a racionar o ar respirado, assim como gado e pessoas estão sendo instados a não peidarem além do permissível para não produzir e difundir gás metano.

Ora, vão-se catar! Não seria muito mais apropriado botar uma mão firme em cima dos mercados financeiros, e assemelhados, que criam valores do nada, e produzem objetos e serviços inúteis, para garantir a contínua multiplicação de de valores monetários virtuais?

Ah, por via das dúvidas, fiquem de olho numa “pequena” empresa transnacional chamada Agbar…

E podem repassar à vontade, pois parece que o neoneoliberalismo e o politicamente correto deixaram muita gente de miolo mole e incapaz de enxergar certas obviedades.

* Tania Jamardo Faillace é jornalista e escritora de Porto Alegre, RS

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