Chuva alaranjada que caiu sobre Porto Alegre era ácida, confirma Inpe

O tom alaranjado da chuva que atingiu Porto Alegre em 12 de agosto, causando estranheza nos moradores da Capital, não tinha sido alterada somente na sua cor. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) confirmou ontem que o fenômeno era chuva ácida.

O pesquisador do Inpe Saulo Freitas afirmou que a ocorrência de chuva ácida está relacionada com a emissão de poluentes das queimadas que ocorrem nas regiões Centro-Oeste e Norte do país, além de Paraguai, Bolívia e Argentina. Ontem, o município de Santana do Livramento registrou queda de uma espécie de chuva negra, assustando moradores. Como a origem dos poluentes dessa precipitação é tida como a mesma da que chegou a Porto Alegre, a meteorologista Estael Sias suspeita que a chuva de Livramento também possa ser ácida.

— O processo, em princípio é o mesmo. Fica a diferença das cores, tem que ver o que isso significa — afirma.

A fuligem chegou ao Rio Grande do Sul nas massas de ar oriundas dessas regiões afetadas por queimadas, de acordo com Freitas. A explicação para a formação de chuva ácida é que as gotas atravessaram essas camadas de poluição e levaram consigo as partículas de poluentes, chegando até a superfície.

No alerta do Inpe não consta o teor de acidez da chuva que caiu sobre Porto Alegre no último dia 12. Para ser considerada ácida, porém, a chuva deve ter Ph inferior a cinco, conforme a Somar Meteorologia. O meteorologista Marcio Custódio explica que os efeitos conhecidos nos objetos expostos à chuva são a “queima” da pintura e até mesmo a oxidação. Sobre o o corpo humano, os efeitos ainda são estudados, aponta Custódio. Os principais problemas de saúde que se conhecem são coriza, irritação na garganta e olhos. Também pode afetar o pulmão.

O ácido sulfúrico levado pela chuva pode causar corrosão, mas é difícil que comprometa a pele humana. Isso porque ela vive se renovando, segundo o dermatologista Vítor Reis, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Isso impede que as substâncias se acumulem sobre a pele de quem tomou um banho de chuva ácida.

Chuva negra intriga Santana do Livramento

Acostumado a guardar água da chuva para lavar o pátio de casa em Santana do Livramento, o comerciante João Tailor Machado, 51 anos, se assustou com o que viu no recipiente que armazena as precipitações: a água em sua cisterna improvisada estava escura.

A chuva negra atingiu a cidade no início da tarde de quinta-feira. Numa banheira antiga que fica no pátio da residência do comerciante, desemboca uma calha que capta a chuva. Foi a segunda vez que ele observou o fenômeno. Na semana passada, teria ocorrido a mesma coisa.

A esteticista Ana Dutra, 50 anos, também testemunhou. O piso claro da frente da casa havia ficado sujo com as precipitações. E ele tinha sido lavado de manhã. Seu vizinho, o aposentado Juracy Furtado, 62 anos, notou a água escura em um balde que ficou para o lado de fora da casa. Não é a primeira vez que ele passa pela experiência. Na infância, recorda que ter notado que a água que caíra em um recipiente era acinzentada. Na época, segundo ele, o motivo seria um vulcão em erupção no Chile.

—Quando está chovendo, a gente não percebe a cor. Só quando junta água que dá para notar — explica o aposentado.

A chuva escura pode estar associada à fuligem das queimadas no norte da Argentina, Paraguai, Bolívia e centro do Brasil, conforme a meteorologista Estael Sias, da Central RBS de Meteorologia. A fuligem teria sido trazida ao Estado pelo vento norte que predominou no começo da semana. De acordo com Estael, a chuva pode ter limpado a atmosfera, ou seja, tirado a fuligem que estava no ar e a levado para a superfície.

O prefeito Wainer Machado soube da chuva escura pela imprensa. Um dos relatos que chegou até ele foi o de que parte de um piso apresentava sinais de corrosão. Segundo o prefeito, o Departamento de Meio Ambiente coletou amostra da água para análise.

—Estamos atentos e preocupados com isso. Vamos buscar as respostas para saber qual a origem disso, se tem acidez— diz o prefeito

Fonte: Clicrbs

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