Por Darci Bergmann


O presidente Luís Inácio Lula da Silva parece incomodado com os pequenos bichos que atrapalhariam as suas grandes obras. Ao se referir às obras do seu governo, Lula afirmou que algumas delas sofrem atrasos devido à burocracia das leis ambientais. Ao discursar em Porto Alegre, no dia 29 de julho do ano corrente, o presidente voltou a se referir a um episódio que teria ocorrido aqui no Estado. Uma obra não saía do papel porque o estudo de impacto ambiental teria identificado uma espécie de perereca em risco de extinção.
Depois de seis meses, pela interferência presidencial, a obra finalmente teria sido licenciada. Eu assisti pela televisão o discurso do presidente e me chamou atenção esse detalhe da perereca. Mas o jeito descontraído do presidente, ao contar o fato como uma espécie de anedota, esconde algo muito mais sério. Parece que os governos não gostam de cumprir as leis ambientais. Especialmente em anos eleitorais quando certas obras devem ser anunciadas e iniciadas rapidamente porque podem gerar dividendos. A qualidade de tais obras e os impactos ambientais delas decorrentes parecem não preocupar muito os governantes desde há muitos anos. Em outros tempos, incontáveis obras foram iniciadas por pura demagogia eleitoreira e depois abandonadas por falta de verbas e viabilidade econômica. Outras causaram grandes estragos ambientais, tudo porque foram implantadas às pressas. Agora, prefeitos, governadores e até presidentes usam o pretexto da legislação ambiental como responsável pelo atraso de obras.
O leitor atento verá que enquanto o presidente fica invocado com as pererecas, grupos verbívoros estão sempre atentos para devorar recursos públicos em obras faraônicas por esse Brasil afora. Algumas dessas obras são questionadas não só por questões ambientais, mas também pelos impactos sociais negativos que podem causar às populações. No atual momento, obras previstas de usinas hidrelétricas estão sob forte análise de vários órgãos e inclusive da sociedade civil. Num caso assim pode acontecer que alguma outra espécie de perereca seja acusada de atrapalhar algum licenciamento.
Lembro-me de um fato ocorrido no Fórum Global, em 1992, no Rio de Janeiro. Eu estava num estande de ONG ligada à defesa dos animais, chamada SOZED – Sociedade Zoófila Educativa. Esta e outras organizações promoviam um abaixo-assinado pela proibição da caça esportiva, aquela em que o caçador mata simplesmente pelo prazer. Assinei pela proibição da caça e recolhi outras assinaturas no entorno.
Próximo vi o então líder sindical Lula e o deputado Roberto Freire. Cumprimentei-os e disse que Lula estava predestinado a ser um dia o presidente deste País e o meu voto ajudaria para tal, como de fato ocorreu. Depois de rápidas conversas, apresentei-lhes o documento contra a caça rotulada de esportiva. Lula e Freire assinaram e se mostraram adeptos da causa. Mostraram-se preocupados com as questões ambientais e ali no Fórum Global poderiam recolher subsídios. Voltei ao estande da SOZED e disse ao grupo: o futuro presidente da república assinou a favor dos animais.
Hoje, decorridos dezoito anos daquele episódio no Fórum Global do Rio de Janeiro, percebo que o poder parece influenciar as pessoas. As palavras parecem que tem outro significado com o passar dos tempos.
Talvez a pressão dos compromissos assumidos em campanhas influencie os mandatários eleitos. Ou quem sabe o tempo vai minando o interesse por certas questões. Não sei se esse é o caso do meu presidente. Mas não escondo que me causa certa estranheza vê-lo incomodado com a perereca.

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