No último dia 03 de março, o aluno da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Dirceu Benincá, defendeu a tese de doutorado intitulada “Água e energia para a vida – O Movimento dos Atingidos por Barragens no Brasil (1991-2009)”. A tese é uma análise sobre os principais impactos sociais, ambientais e simbólicos gerados com a construção de barragens.

“Lancei um olhar sobre o cenário brasileiro, tentando entender o modelo energético vigente, vinculado aos impulsos do capitalismo, o qual se move pelo lucro a qualquer custo”, afirmou Benincá. O trabalho tem por objetivo principal analisar alguns aspectos da trajetória do MAB, sobretudo suas formas de organização e resistência aos grandes projetos hidrelétricos. Investiga a articulação das questões sociopolíticas com a dimensão ambiental em sua história recente. Destaca também os principais valores e práticas que emergem de suas lutas.

Além do orientador, Prof. Dr. Luiz Eduardo Wanderley, da PUC/SP, fizeram parte da banca examinadora os professores Drª Maria Lucia Carvalho da Silva e Drª Rosangela Dias Oliveira da Paz (da PUC/SP), Dr. Antonio Boeing, das Faculdades Integradas Claretianas; e Dr. Ivo Lesbaupin, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mais de 40 pessoas, entre professores, alunos, membros do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e amigos assistiram a apresentação.

No Brasil, são poucos os rios de médio e grande porte que ainda não foram barrados no mínimo em um ponto para a instalação de usinas hidrelétricas. De acordo com o Movimento dos Atingidos por Barragens, a cifra dos expulsos de suas propriedades e locais de vida por tais projetos já transcende um milhão de brasileiros, sendo que cerca de 70% deles não têm seus direitos garantidos. “Dessa maneira as barragens acabam por aumentar o contingente dos sem terra, sem trabalho e sem perspectivas, ampliando a fome, a violência e a miséria”, ressalta o autor.

Outro ponto enfatizado no trabalho é o processo através do qual as populações afetadas com a construção de barragens no Brasil podem resgatar sua dignidade, preservar seus direitos ameaçados e conquistar outros que jamais obtiveram. Dirceu explica que, ao fortalecerem a consciência coletiva de sujeitos de direitos e deveres, os atingidos por barragens se habilitam ao exercício de uma cidadania ecológica, como aquela que se caracteriza por uma visão mais integradora das diversas dimensões da vida humana.

Os posicionamentos teóricos, as múltiplas formas de resistências e denúncias, a defesa dos direitos dos atingidos, as conquistas e proposições concretas do Movimento ao longo de sua trajetória dão a estrutura da outra parte da tese. Nela, Benincá procura demonstrar que os objetivos e a luta do MAB não se restringem à busca de medidas paliativas e compensatórias, mas se voltam para a construção de um projeto energético distinto e, em última instância, para a instauração de uma sociedade sustentável, justa, solidária, democrática e protetora do meio ambiente.

Após ter realizado seu doutorado em Ciências Sociais (2007- 2009) em São Paulo, com um estágio de cinco meses em Coimbra (Portugal), Dirceu retornou para Erechim, sua cidade de origem, onde assumiu um cargo de direção da recém criada Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS).

(Mab, 08/03/2010)

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