Infelizmente não encontramos fotos de pequenas agricultoras rurais do Pampa. Sendo assim, ilustramos com o humor do Eugenio Neves

Recebido por email pelo companheira de lutas ecológicas de Herval

por Marília G.*

A falta de políticas públicas que propiciem melhores condições de vida para os pequenos produtores rurais no Brasil e particularmente no Pampa onde eu vivo, permite que as coisas por aqui cheguem sem causar muito impacto, chamadas até de “soluções econômicas viáveis” em nome do dito “desenvolvimento”.

Sem ir muito longe a um passado distante, deixando de avaliar a ocupação européia- visto que para falar sobre isto temos muitos, e bons, especialistas historiadores- me atenho em citar fatos mais, bem mais, recentes.

Por volta do ano de 2003, 2004 começamos a viver a realidade de monocultivo do eucalipto no Pampa, mesmo que alguns membros da academia insistam em afirmar que o eucalipto é tão antigo no Pampa quanto o europeu, aproveito aqui para esclarecer que quando os europeus ocuparam estas terras com plantéis gigantescos na fronteira mais a oeste, sentiram falta de sombra para o gado, já que a vegetação lá é basicamente pasto e espécies arbustivas, então trouxeram o eucalipto que era plantado em pequenos bosques, e assim que maturava tinha sua madeira utilizada para alambrados, construções e coisas do gênero. Então, sim temos eucalipto a muitos e muitos anos no Pampa, mas não podemos – e é um absurdo- comparar aqueles pequenos bosques com os monocultivos realizados nos dias de hoje. Na época da implantação das lavouras a falta de conhecimento da população sobre as plantações e a miséria a que este povo foi sempre submetido a viver tornou o processo todo muito fácil. Não só a compra de terras de latifundiários falidos, como a mão-de-obra barata e submissa, já que as condições de trabalho são péssimas.

Como consequências imediatas deste plantio desordenado, podemos citar a invasão de formigas, a invasão de pássaros de pequeno porte as propriedades vizinhas, a diminuição notável de muitos animais silvestres, o aparecimento perto de residências de animais antes encontrados apenas em matos densos, a contaminação das sangas por secantes, fertilizantes, formicidas utilizados nas lavouras, o desaparecimento de “olhos d’água” e pequenos açudes próximos ou dentro das lavouras.

Agregando este fato a inúmeros problemas mundiais – todos eles ligados ao “desenvolvimento”- tivemos entre fim de 2005 e início de 2006 a pior seca já vista não só no Pampa, mas em todo Estado e também na Argentina e Uruguai, na época ainda me lembro que a RBS noticiou que “aquela seca poderia ser comparada a seca de 62” induzindo as pessoas a pensarem se tratar de um ciclo natural, mas felizmente temos pessoas com memória, minha vizinha é uma destas que além de memória, anota tudo e garante”- a seca de 62 não foi pior que esta, esta foi mais extensa e mais ventosa.” Bom, passada a seca, e depois de vários investimentos pessoais – como já disse não existe política pública pro pequeno- para enfrentar as próximas secas que viriam, tivemos em 2007 períodos curtos de seca durante todo o ano, em 2008 já tivemos um ano bem mais agradável, as pessoas conseguiram plantar e colher – o que a caturrita e o javali não comiam- e nos adaptávamos diante das novas “pragas”.

Veio então o setembro de 2009, em nossa região os setembros sempre são terríveis, tem inúmeras músicas nativistas que contam com beleza o terror dos temporais. Mas, este ano o que se conhecia de temporal não foi suficiente para diminuir o pânico vivido por todos que moram no sul do Pampa Gaúcho. Foram ao todo, de setembro à dezembro 23 temporais, com tornados, muitos raios, muito vento, muita chuva, gerou inundações onde faz seca, arrancou casas inteiras, deixou um número incalculável de famílias na rua,mais de uma vez, em muitos lugares mais de duas ou três vezes. Arrancou escolas inteiras, escolas estas que as prefeituras não querem reerguer, facilitando o processo de urbanização das crianças rurais. Bem, foram muitos estragos materiais e imateriais, ainda hoje por onde andar por aqui vai ver e ouvir coisas acontecidas naqueles meses.

Hoje então, estamos sendo obrigados a conviver com o monocultivo de soja transgênica, que está entrando com força total, no município de Jaguarão as lavouras já passam de 14.000ha onde se deixou de plantar trigo, milho entre outros grãos, e também diminuiu drasticamente o rebanho bovino. Geograficamente, Herval não se presta pra este tipo de plantio, mas temos agora nas mãos da CTNBio a aprovação do milho transgênico, algo que vai nos danar e muito. O milho, pra quem não sabe, é a base da agricultura camponesa, é o alimento principal de todos os animais criados na volta da casa – galinhas, patos, gansos, porcos, coelhos, vacas de leite, terneiros, ovelhas guaxas e os companheiros – cavalo e cusco-  e muitos utilizam comer o milho, seja verde deliciosamente cozido, ou depois de seco moído como farinha, comido em encantadores bolos ou polentas e outras mil coisas que dele podem ser feitas.
Recentemente tive a oportunidade de assistir o filme “O mundo segundo a Monsanto”, e ali, muito comprovadamente é mostrado o dano que estas aberrações já fizeram e estão fazendo no ser humano. O veneno RR – Roundup Red – utilizado nas lavouras transgênicas das sementes da Monsanto ganhou uma popularidade incrível pela sua eficácia na “limpeza” das lavouras, o que o produtor levaria seis dias para capinar, hoje passando o RR faz em um dia sozinho.

É realmente impressionante, mas existem mil coisas que podem ser citadas como o mal que este veneno é, me surgiu então uma preocupação bem particular, voltada a pequena propriedade, obviamente que pra  passar o veneno em uma lavoura de um dois até cinco hectares, não vai se utilizar avião, então as pessoas usam o pulverizador costal, fazem manualmente as misturas e colocam nas suas costas, não usam máscaras, luvas ou botas, óculos protetor nem pensar. O pior é que isso não está só nas lavouras, as pessoas estão usando isso em todas as situações imagináveis, na horta, no jardim, no pátio, na sombra da árvore, no caminho do gado, no passo que liga a sanga ao campo… é um absurdo!!

É um genocídio, feito pelas indústrias do mundo “transgênico”, aceita pelos governos, todos, e agente fica aqui, se unindo e lutando para tentar mudar esta realidade!!

E agora virá então o eucalipto transgênico para alta produção de celulose.

Vamos lutando!

*Marília G. (Assentamento Tamoios de Herval- RS)

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