Ano Internacional da Biodiversidade: e os povos?


Em vez de receber um bem merecido “prêmio ambiental” por protegerem a biodiversidade, essas comunidades estão sendo despojadas, reprimidas e deslocadas de seus territórios, para permitir a ocupação de suas terras por corporações que destroem a biodiversidade bem como para estabelecer as chamadas “áreas protegidas” que destroem seus meios de vida e cultura- sem sequer atingir o objetivo declarado de conservar a biodiversidade.

As Nações Unidas declararam 2010 como o Ano Internacional da Biodiversidade. Conforme o site oficial, “É uma celebração da vida na Terra e do valor da biodiversidade para nossas vidas. O mundo está convidado a agir em 2010 para salvaguardar a variedade de vida no planeta: a biodiversidade.” A biodiversidade está retratada como nossa “riqueza natural”, com a qual contamos para ela nos providenciar “madeira, combustível, medicinas e outros produtos essenciais” sem os quais nós “simplesmente não podemos viver.”

Nós acreditamos que mesmo verdadeira, a afirmação acima não reflete adequadamente o significado completo da biodiversidade. A esse respeito, nós pensamos que é necessário enfatizar que os seres humanos fazem parte da biodiversidade da Terra, não apenas como quem a usa- e abusa- mas também como um repositório de uma enorme diversidade de culturas, muitas das quais têm um profundo conhecimento sobre o uso sustentável da biodiversidade. Algumas dessas culturas já têm sido apagadas da face da Terra enquanto outras – usando a linguagem da biodiversidade – tornaram-se “raras, ameaçadas e em vias de extinção”. No entanto, elas não aparecem nas “listas vermelhas” como é o caso de espécies animais que enfrentam a extinção.

Mas a extinção está acontecendo justamente agora. Com profunda tristeza, recebemos a notícia de que no dia 4 de fevereiro o último membro de uma tribo única morreu nas ilhas indianas Andaman. Boa Sr, que faleceu com cerca de 85 anos, foi a última falante de ‘Bo’, uma das dez línguas dos Grande Andamaneses. Estima-se que os Bo viveram nas ilhas Andaman durante mais de 65.000 anos, sendo assim os descendentes de uma das culturas mais antigas na Terra.
Se ela tivesse sido o último representante de uma espécie de tigre, de macaco, ou de gorila, provavelmente sua morte teria recebido cobertura no mundo todo. Mas ela era “somente” o último membro de uma “tribo” em uma ilha do Oceano Índico.

Nas florestas dessa mesma ilha vivem os Jarawa, que escolheram e conseguiram resistir o contato com os estranhos até 1998. Conforme a Survival International, agora eles estão seriamente ameaçados. Caçadores ilegais estão acampando durante dias nas suas florestas, e as autoridades locais desobedeceram uma ordem da Suprema Corte da Índia de fechar o caminho que atravessa a reserva dos Jarawa. Em 1999 e 2006, os Jarawa sofreram surtos de sarampo- uma doença que arrasou muitos grupos indígenas no mundo todo após o contato com estranhos.

Uma situação semelhante enfrentam diversos povos indígenas que vivem nas florestas da América do Sul, que ainda resistem ao contato com a sociedade que os circunda. Eles vivem em isolamento voluntário em seus territórios ancestrais e nunca foram perguntados se eles queriam ser cidadãos do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Paraguai ou Peru. Seus territórios foram incluídos dentro dos limites dos novos países criados no século XIX por descendentes principalmente de espanhóis e portugueses após ganharem a independência da Espanha e Portugal.

Seu destino está intimamente ligado a uma das questões referidas à biodiversidade mais divulgadas: a destruição das florestas tropicais. A maior parte dos grupos isolados remanescentes vive na floresta amazônica enquanto uns poucos vivem no Chaco da Bolívia e do Paraguai. A biodiversidade florestal satisfaz todas suas necessidades, mas suas florestas vêm sendo constantemente destruídas e degradadas pela sociedade de fora, e assim são empurrados à beira da extinção.

Muitos outros povos indígenas e comunidades tradicionais do mundo inteiro estão lutando para protegerem suas culturas diversas- profundamente arraigadas na biodiversidade- contra as forças do chamado “desenvolvimento” desencadeado contra eles por parte de governos e instituições internacionais. A extração industrial de madeira, o petróleo, a mineração, as barragens, plantações, criação de gado, criação de camarão não “acontecem” por acaso: são promovidas pelos mesmos governos e instituições que deveriam proteger a biodiversidade.

Em vez de receber um bem merecido “prêmio ambiental” por protegerem a biodiversidade, essas comunidades estão sendo despojadas, reprimidas e deslocadas de seus territórios, para permitir a ocupação de suas terras por corporações que destroem a biodiversidade bem como para estabelecer as chamadas “áreas protegidas” que destroem seus meios de vida e cultura- sem sequer atingir o objetivo declarado de conservar a biodiversidade.
Se ao declarar 2010 como o Ano Internacional da Biodiversidade, as Nações Unidas objetivam verdadeiramente a salvaguarda da “variedade de vida na Terra”, deveriam começar por salvaguardar os direitos de todas essas comunidades, e assim garantir a conservação da biodiversidade em toda sua extensão. Isso seria um bom começo.

Fonte: Boletim 151 do WRM

Anúncios