March Copenhagen 10 por ipsnews.

Esperanças e desilusões da COP-15

Por Marisa Matias*

Depois daqueles que eram aguardados como os mais importantes discursos da conferência sobre as alterações climáticas ficamos mais ou menos na mesma, com agravantes. De Lula chegou, é certo, a oferta inesperada. Logo a seguir, contudo, de Obama não veio nada de novo, nada mesmo.

Começou o secretário-geral das Nações Unidas, seguiu-se o Presidente do Conselho de Estado da China. As mesmas posições repetidas até à exaustão. A única excepção foi a disponibilidade anunciada pelo governo chinês para uma maior cooperação e abertura.

O terceiro discurso foi o de Lula. Não só fez uma magnífica intervenção, como teve a coragem de assumir que, apesar das responsabilidades diferenciadas dos vários países do mundo, o Brasil estaria disposto a contribuir financeiramente para o fundo global de combate às alterações climáticas em benefício de países terceiros. O Brasil não apenas dispensaria esse fundo, uma vez que têm já os recursos próprios no âmbito de um plano bastante ambicioso, como – e furando o braço-de-ferro entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento que minou toda a Cimeira – estaria disponível para se juntar aos países desenvolvidos e financiar medidas de adaptação noutros países, assumindo as responsabilidades daí decorrentes. Assisti aos discursos da manhã no Pavilhão da Europa com toda a delegação parlamentar. A ovação final foi geral. Pensou-se, na altura, que teríamos acordo. Faltava só Obama. Por momentos pensou-se que Lula só não quebraria a barreira se Obama não estivesse também disposto a ir mais longe.

A verdade é que não foi. Barak Obama não acrescentou uma linha ao que já era conhecido da posição norte-americana. As mesmas metas de redução, as mesmas intenções vagas, as mesmas condições para aceitar participar no fundo de ajuda financeira aos países em desenvolvimento – mitigação, transparência, financiamento. Repetiu várias vezes que era tempo de acções e não de palavras e conseguiu, ao mesmo tempo, não propor nenhuma das intervenções consideradas. Os seus compromissos – muito fracos – continuam ainda muito dependentes de inúmeros “ses”. Contrariamente ao que se passou antes, não houve ovação geral para Obama. Pelo contrário, sentiu-se desilusão. Repito, estávamos no Pavilhão Europeu. Os membros da delegação do Parlamento Europeu tinham-se sentado sobretudo para ouvir Obama. Lula acabou por ser a surpresa, mas o presidente norte-americano parece que nem o ouviu. Frustrou o entusiasmo que a intervenção anterior proporcionara.

E a Europa? Até onde é que a Europa está disposta a ir? Até onde poderá descer nas suas metas e nos objectivos que definiu? Até onde poderá contrariar a decisão tomada em sede de Parlamento. Essa é uma das grandes questões agora. Percebe-se já que o documento que assinar ficará muito abaixo dos objectivos mínimos definidos. Assiná-lo-á? Estará disponível para dar sequência à antevisão de Lula quando disse: “as figuras mais importantes do planeta estão disponíveis para assinar um documento só para poderem dizer que assinaram um documento”.

Pouco depois a situação tornou-se clara: teremos uma declaração política não vinculativa em Copenhague. Se terá os dois documentos de discussão em anexo ou não é ainda uma incógnita. Assim como o seu conteúdo.

*Marisa Matias, membro da delegação do Parlamento Europeu

Publicado por Esquerda.net.

Fonte: Revista Fórum

Imagem: IPS News

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