Algumas ponderações acerca de um evento do Díalogo Florestal (que para o CEA está mais para monólogo monocultural) circularam na rede da APEDeMA-RS.

Abaixo segue a sistematização de tais ponderações feita pelo ambientalista Julio Wandam.

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Professor Backup alerta sobre “Diálogo Florestal”

por Julio Wandam

A criação e o desdobramento das atividades do assim chamado “Diálogo Florestal” vem sendo acompanhados pelos integrantes das diversas ONGs de caráter sócio-ambiental no RS com um misto de curiosidade e de desconfiança e com um pouco de apoio localizado. Para o professor Ludwig Backup, doutor da UFRGS, o mesmo acredita que algo está fora da ordem. “A grande maioria das pessoas com que tenho conversado consideram o objetivo de ‘…Manter e consolidar um espaço de diálogo pró-ativo entre ambientalistas e empresas do setor florestal…’, assim destacado no relatório de 2008 do Diálogos Florestais, algo completamente utópico, já que o comportamento das empresas papeleiras no Brasil tem sido sempre o da rejeição dos reclamos por sustentabilidade ambiental.”, alerta.

Em sua militância ambientalista, procura manter a mente aberta, aceitando democraticamente as opiniões contrárias. Porém, “…não me deixo guiar por preconceitos ou radicalismos infundados. Mas agora estamos tendo a oportunidade de conhecer, com mais detalhes, a forma de atuação do referido “Diálogo”…, como descreve a seguir:

Através de um convite enviado por Eduardo Osório Stumpf, funcionário da Aracruz, para todos os membros da Câmara Técnica de Biodiversidade e Política Florestal, informando sobre a realização de um debate com o tema “Silvicultura e a Água” na ULBRA de Cachoeira do Sul/RS, como promoção do “Diálogo Florestal”, o Professor alerta sobre algumas peculiaridades deste evento e o bojo desta proposta.

Transcrevemos abaixo, o texto completo do convite e do programa do evento, enviado a CTB do CONSEMA:

“O Diálogo Florestal tem sido uma importante ferramenta de diálogo entre o setor produtivo e o terceiro setor. Através da identificação de agendas comuns entre empresas e ambientalistas, busca-se a promoção de ações efetivas associadas à produção de florestas plantadas e a ampliação de escala dos esforços de conservação e restauração dos ambientes naturais envolvidos nos sistemas de manejo dos projetos florestais.

Desde 2007 no RS vem acontecendo encontros entre as empresas de base florestal do segmento da celulose e as Organizações Não Governamentais ligadas a Rede Mata Atlântica para dialogar sobre os projetos florestais.
Buscando ampliar esta discussão, vimos através deste convidá-los a participar conosco, para debater sobre o tema silvicultura e a água, que compõe uma das prioridades deste grupo.

Realizaremos este encontro em parceria com os comitês de bacias hidrográficas do Baixo Jacuí e Santa Maria.”

O evento ocorrerá amanhã, no dia 14 de Agosto de 2009, a partir das 8:30 da manhã na Sede da ULBRA em Cachoeira do Sul/RS

Horário: 08h 30 min.
Local: Sede da ULBRA – Cachoeira do Sul

Para o Professor Backup, “tratando-se de um evento a ser realizado no ambiente acadêmico, poder-se-ia imaginar que haveria abordagens consistentes sobre as implicações ecológicas da silvicultura com eucaliptos. Cheguei a cogitar de participar o evento, já que a questão das relações entre as lavouras de eucaliptos e as disponibilidades hídrica no RS está longe de ser corretamente avaliada e considerada.” Para avaliar esta questão, procurou informações sobre os nomes convidados e verificou o seguinte:

Quem é Aristides Ribeiro? (palestra sobre “Silvicultura e Disponibilidade Hídrica em Bacias Hidrográficas” – Prof. Aristides Ribeiro – UFV:

(Carreira) – Bolsista de Produtividade em Pesquisa 2 | Orientador de Mestrado | Orientador de Doutorado; Doutorado em Ciências (Energia Nuclear na Agricultura) pela Universidade de São Paulo, Brasil(1996). Atuação em Recursos Hídricos, com ênfase em Planejamento Integrado dos Recursos Hídricos; Professor Associado II da Universidade Federal de Viçosa , Brasil

Comentário: “Sendo docente na UFV, suponho que deve ter alguma qualificação científica. No entanto, examinando-se as suas atividades de pesquisa, logo aparece o acadêmico “chapa branca”, a serviço das papeleiras” – Vejam os títulos:

(*) Acompanhamento dos estudos em recursos hidricos e meteorologia aplicada a sistemas florestais que vem sendo conduzidos na Veracel;

(*) Otimização para a rede de estações (Convênio SIF/VERACEL n 747);

(*) Avaliação dos Impactos na Produção de Àgua Decorrentes da Expansão da Base Florestal da Veracel: Ferramenta de Tomada de Decisão (CONVENIO SIF/VERACEL nº 808);

(*) Monitoramento das Trocas de Superfície (Fluxos de Calor e Vapor de Água) no Sistema Solo-Eucalipto-Atmosfera em Microbacias da Celulose Ni-Brasileira S.A. – CENIBRA. (CONVENIO SIF/CENIBRA nº 793);

(*) Modelagem do balanço de energia e do crescimento de plantios de eucalipto em estado inicial de desenvolvimento com cobertura parcial do solo (Convênio nº529 SIF-UFV/Aracruz Celulose);

(*) Modelagem e Simulação dos balanços de Energia e Agua para os Plantios de Eucalipto e Culturas de Soja, Arroz e Feijão no estado do Rio Grande do Sul (CONVENIO SIF/GRANFLOR nº 671);

(*) Modelagem e simulação da água da chuva interceptada pelo dossel vegetativo e serapilheira em plantios jovens de eucalipto em Minas Gerais (FAPEMIG EDT 2268/03);

(*) Modelo Espacial de Simulação do Desenvolvimento dos Plantios de Eucalipto da Cenibra. (CONVENIO SIF/CENIBRA nº 352);

(*) Monitoramento do nível do lençol freático para plantios de eucalipto nas áreas da Cenibra (Convênio nº352 SIF-UFV/Cenibra-Celulose Nipo-Brasileira S. A.)

Quem é Wagner Gerber? (palestra sobre Monitoramento de Bacias com Silvicultura – Dr. Wagner Gerber – Ecocell)

(Carreira) – Funcionário do Centro Federal de Educação Tecnológica do RS, Professor da Universidade Católica de Pelotas e Responsável pelo Licenciamento Ambiental da Universidade Luterana do Brasil. Tem experiência na área de Engenharia Química , com ênfase em Tecnologia Química. Atuando principalmente nos seguintes temas: Tratamento de Efluentes Industriais, UASB, UASB-PAE, meio-ambiente, wetlands e UASB-RBA.

Comentário: Trabalha na  empresa Ecocell Tecnologia Consultoria e Serviços Ltda, com sede em Pelotas,RS. A ECOCELL trabalha com a Votorantim Celulose e Papel desde o ano de 2004. Portanto, um tecnólogo a serviço da Votorantim C.P.

Quem é João Manoel S.O.T. Silva? (palestra sobre a Gestão de Bacias no RS –  João Manoel S.O.T. Silva – DRH/SEMA)

Pelo que conseguiu apurar, é apenas funcionário da SEMA/RS, atuando na Diretoria de Recursos Hídricos, portanto, a serviço do desmonte do sistema estadual de proteção ambiental promovido pelo atual Governo do Estado.

Professor Ludwig Backup tem questões que ainda não encontram respostas. “Mas que diálogo é este? Como é que as ONGs que aderiram ao “Diálogo” concordaram com a realização de um debate integrado apenas por representantes do “deserto verde” e por membros do governo que os apoia? Resta perguntar, porque nenhum profissional ecólogo e/ou hidrólogo das IES ou dos órgãos independentes de pesquisa do RS será ouvido em Cachoeira do Sul ?!”. Acredita que tal debate em Cachoeira do Sul, será apenas mais uma montagem pseudo-científica voltada para a flexibilização dos cuidados ambientais relacionados com a silvicultura.

Fonte: Blog de Os Verdes de Tapes

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