Na última parte da série sobre o desempoderamento das mulheres promovido pela expansão de monoculturas arbóreas, apresentamos os resultados do Workshop realizados com mulheres brasileiras, mais precisamente, com mulheres gaúchas.

Tais mulheres, de movimentos sociais do campo e da cidade, pequenas agricultoras, pescadoras, evidenciam principalmente as lutas e resistência que elas tem protagonizado em suas comunidades. A maioria delas e suas famílias seguem vivendo no campo, produzindo e reproduzindo sua atividade camponesa, de forma cada vez mais precária, com pouco apoio do poder público e com diferentes formas de pressão por parte das empresas de celulose e papel. Outras também resistem em manter sua residência e comunidade, bem como, seus meios de sobrevivência e vida: a atividade pesqueira.

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Brasil: As mulheres afetadas pelas plantações de eucaliptos falam alto e claro

O consumo mundial de papel tem estourado nos últimos 50 anos. Apenas 1/3 da produção de papel  é usado na fabricação de papel para escrever e imprimir; a maior parte dela é utilizada para propaganda. E quase a metade de todo o papel produzido é utilizado para embalagens.

Para garantir os crescentes níveis de consumo de papel, vastas áreas de plantações de árvores em grande escala vêm sendo estabelecidas nos países do Sul por parte da indústria do papel e da celulose. Esta indústria está entre os maiores geradores mundiais de poluentes do ar e da água, de resíduos, e dos gases que causam a mudança climática.  É também uma das maiores usuárias de matérias-primas, sendo a primeira colocada no consumo industrial de água doce e a quinta no uso de energia industrial em nível global.

País trás país , a terra é tomada  por grandes proprietários empresariais de terras, geralmente estrangeiros; as comunidades locais são deslocadas pelas plantações de monoculturas de árvores de rápido crescimento que alimentam a indústria do papel e da celulose. As plantações causam sérios impactos sociais, ambientais e econômicos para as populações e os ecossistemas locais. Os recursos hídricos ficam esgotados e poluídos pelas plantações enquanto os solos se degradam.

As empresas européias e as agências e instituições de assistência têm um papel significativo na promoção da expansão da indústria de papel e celulose nos países do Sul. Além disso, os níveis de consumo de papel na Europa- junto com os dos Estados Unidos- estão entre os mais altos.

Alimentando os mercados europeus

Apesar de a maior parte da produção de celulose para exportação estar localizada ao longo da costa atlântica, nos últimos tempos a indústria celulósica está se espalhando mais intensivamente para a região mais ao sul, do Rio Grande do Sul, chamada de Pampa sul-rio-grandense (região de pradarias do Estado do Rio Grande do Sul). A paisagem do Pampa- caracterizada por vegetação de pradaria, em que predominam os relevos de planície e por uma vegetação mais densa, arbustiva e arbórea nas ladeiras e ao longo dos cursos d’água, além da existência de pântanos- está experimentando uma transformação extensiva e o ecossistema nativo está sendo substituído por “desertos verdes”: as monoculturas de eucaliptos.

Desde 2003, as licenças ambientais para as plantações de eucaliptos vêm sendo concedidas de forma precária, descumprindo as regras e sem ter concluído o Zoneamento Ambiental para atividades de Silvicultura no Estado do Rio Grande do Sul.

Os três protagonistas que se instalaram na região são: a Aracruz Celulose, a Votorantim Celulose e Papel e a sueco-finlandesa Stora Enso. Apesar de a Votorantim e a Aracruz serem empresas brasileiras, os mercados para seus produtos são principalmente países europeus.

Meios de sobrevivência em xeque

A expansão das atividades florestais tem levado à perda de produtividade das terras em várias regiões e colocaram em risco os meios de vida das famílias que optam por ficar nas áreas rurais. Foi necessário o uso mais intenso de fertilizantes nas lavouras familiares.

[No passado] não precisava trabalhar muito a terra, colocar adubo, e hoje tem que colocar se  não, não colhe nada. Se plantava arroz porque tinha umas lagoas pequenas, açudes, onde o pessoal largava as vacas de leite para tomarem água. (…) Se tem dificuldade para plantar batata doce e mandioca, antes se tinha de um ano para o outro, agora não tem mais (Trabalhadora de Herval).

A produção leiteira familiar está ficando cada vez mais inviabilizada; devido a que a produção não é recolhida perto da propriedade, é necessário transportar o leite até locais mais distantes. A péssima condição das estradas, causada pelos caminhões da empresa plantadora,  dificulta e muitas vezes até impede, a circulação do caminhão que recolhe a produção de leite.

A escassez de água é outra conseqüência das plantações de monoculturas de eucaliptos.  Em São José do Norte a água não tem a mesma qualidade de épocas passadas e há água apenas em poucos lugares.

Em outros lugares, os eucaliptos plantados próximos às propriedades têm causado uma barreira contra o vento, que impede a circulação de ar e possibilita que as moscas se propaguem contribuindo assim a infecções e doenças.

As caturritas (Myiopsitta monachus) habitam geralmente nas florestas, e quando estas desapareceram as caturritas encontraram nos eucaliptos um local perfeito para construírem seus ninhos nos galhos mais altos. Aí estão protegidas do ataque de inimigos naturais e podem encontrar alimento facilmente nas lavouras de milho. Os poucos produtores rurais que ainda plantam milho sofrem o ataque das caturritas, o que faz com que muitos desistam de plantar milho.

Os predadores javalis (Sus scrofa) reproduziram-se de forma descontrolada no RS e usam as monoculturas de eucaliptos como esconderijo e abrigo.

A vida tornou-se mais dura para as comunidades rurais. Mas não apenas para elas: muitas famílias que foram forçadas a vender suas terras para as empresas de celulose foram morar nas cidades. Lá, enfrentam condições difíceis de sobrevivência diária, pois muitas delas tem baixa escolaridade e assim fica difícil arranjar um bom emprego. Além disso, lá não podem ter hortas para a subsistência familiar. As mulheres que vão para as cidades geralmente acabam arranjando empregos como domésticas em casas de famílias urbanas.

Aumenta a pobreza nas cidades porque estas pessoas que vendem as suas terras vão para as periferias. E vão para a cidade fazer o quê? (Trabalhadora Rural de Encruzilhada do Sul)

Quais empregos?

As plantações oferecem empregos majoritariamente para os homens enquanto as poucas oportunidades abertas às mulheres reforçam seu papel em serviços considerados inferiores e menos visíveis. As tarefas que as mulheres fazem para as empresas de celulose são praticamente  insignificantes e elas só podem trabalhar como cozinheiras para os trabalhadores que plantam eucaliptos. Em Barra do Ribeiro, a única fonte de emprego que as plantações providenciam para as mulheres é o viveiro de mudas de eucalipto.

A maioria das mulheres que trabalham nos viveiros de mudas de eucalipto tem problemas de tendinite, e de lesões por esforços repetitivos. Há também sérios casos de alergias cutâneas- supostamente devido aos produtos químicos que usam.

Quando os homens saem para o  trabalho nas plantações de eucaliptos, as mulheres geralmente ficam sobrecarregadas, já que devem tomar conta da família e lidar com as tradicionais tarefas domésticas sem nenhuma ajuda. As mulheres e a família ficam sozinhas por muito tempo e é preciso que as mulheres assumam as tarefas da horta.

A violência decorrente das plantações

A expansão das monoculturas de eucaliptos com a chegada de trabalhadores de fora e desconhecidos tem promovido formas de assédio sexual bem como e atitudes machistas e sexistas que criaram situações de medo e insegurança para as mulheres e suas famílias. Isso, sem dúvida, significou um retrocesso na independência e autonomia das mulheres rurais,  contribuindo assim para um maior desempoderamento feminino.

Perda de identidade cultural e de tradições

Durante o workshop, um dos primeiros impactos das plantações industriais de eucaliptos relatados pelas mulheres está vinculado à perda de identidade cultural, devido a que não conseguem viver como uma família de agricultores rurais. As dificuldades são imensas, as políticas públicas não estão endereçadas aos pequenos agricultores, à agricultura familiar, à agroecologia. Essas dificuldades contribuem com o deslocamento da população rural para as cidades.  Esse deslocamento, apesar de não ser devido somente ao reflorestamento- leva aos poucos à perda de identidade local. Com o êxodo das famílias desaparecem os muitos anos de conhecimento local vinculado à produção rural onde a mulher tem um rol significativo.

Após a irrupção das plantações de eucaliptos em grande escala, a alteração mais visível comentada por todas as mulheres no workshop foi a perda das plantas medicinais do Pampa, cuja coleta fica por conta delas. A tradição de coleta da erva medicinal Macela (Achyrocline satureioides)- planta usada com fins digestivos- no RS já está sendo prejudicada com o avanço dos plantios de eucaliptos sobre os campos. Outras plantas medicinais, como a Espinheira-santa (Maytenus ilicifolia)- usada nos tratamentos de gastrite e úlcera-, também serão afetadas com a expansão dos eucaliptos.

Resistindo às plantações de eucaliptos

Em 2006, no Dia Internacional da Mulher, duas mil mulheres da Via Campesina ocuparam, antes do amanhecer, o viveiro de mudas da Aracruz Celulose, no Rio Grande do Sul. E, em uma ação relâmpago, com faixas de cor lilás sobre os rostos, destruíram milhares de mudas de eucalipto. O movimento teve como objetivo chamar a atenção da opinião pública brasileira para os impactos produzidos pelas monoculturas de eucalipto e pinheiros sobre o povo e os ecossistemas locais. Essa manifestação teve um impacto muito forte no Brasil e no resto do mundo.

Em São José do Norte, muitas famílias rurais estão “ilhadas” devido aos plantios de pinheiros e eucaliptos. Contudo, estão resistindo à venda de suas terras.

Em Encruzilhada do Sul, o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) vem desenvolvendo projetos de estratégias e resistência, visando à soberania alimentar, bem como a hortas comunitárias. Também foram promovidos debates na comunidade a fim de esclarecer a problemática das monoculturas do eucalipto.

A participação das mulheres em ações de resistência que objetivam a reforma agrária, a soberania alimentar, a manutenção das famílias nas áreas rurais tem alterado sua posição ou funções na comunidade. As mulheres passaram de ser invisíveis a ser visíveis, principalmente por meio da ação direta feita no viveiro de mudas da Aracruz, no município de Barra do Ribeiro, em 2006. No ano de 2008, e de novo no quadro do Dia Internacional da Mulher, 900 mulheres, integrantes da Via Campesina no Rio Grande do Sul ocuparam 2100 hectares de plantações de monoculturas de eucaliptos que pertencem à companhia transnacional sueco-finlandesa Stora Enso, na área de fronteira com o Uruguai. As mulheres cortaram os eucaliptos e os substituíram com árvores nativas. A polícia atacou violentamente a manifestação.

Em cada lugar, as empresas plantadoras tentam atrapalhar a luta contra as monoculturas de eucaliptos ao interferirem na vida e atividades locais estão envolvidas em criar uma boa imagem institucional de responsabilidade social:

Essas empresas parecem um imenso polvo, com tentáculos em todos os campos da sociedade. (Pescadora de São José do Norte).


As mulheres estão sendo protagonistas na luta contra o avanço das monoculturas de árvores. Elas têm o potencial de fazer com que “o novo aconteça”.  A unificação da ação das mulheres da cidade com as mulheres do campo irá fortalecer a luta contra o avanço dos mega- projetos das empresas de celulose e papel sobre o Pampa gaúcho.

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