A Parte III da série especial, produzida pela WRM, em função do dia internacional de luta das Mulheres (8 de março) evidencia como as mulheres nigerianas enfrentam a problemática expansão dos seringais em seus territórios. Territórios esses cedidos “gentilmente” pelo governo local a iniciativa privada,  a transnacional francesa Michelin (líder mundial em pneus). Inclusive, no site da empresa no Brasil a propagandas da “Energia Verde Michelin” interessante, não!?

Parece até aquela história do “papel bonito lá fora…” que bradam por ai.

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Nigéria: As plantações de borracha da Michelin destruíram os meios de vida das mulheres

“Não quero dinheiro. Quero que devolvam minha terra… se agora eles me derem um milhão de Naira [a moeda local], ainda estarei no vermelho , mas se eu tenho minha terra posso cultivar para cuidar da minha família e possivelmente passar as terras para meus filhos.” (Mulher  de Iguoriakhi)

A transnacional francesa Michelin, um dos principais atores na produção mundial de pneus tem estabelecido bastante recentemente plantações de borracha na Nigéria.

Tudo começou no dia 29 de maio de 2007, quando mais de 3.500 hectares da Reserva Florestal de Iguobazuwa- incluindo terras agrícolas individuais e comunais- foram concedidas à Michelin para serem transformadas em plantações de borracha através de um acordo ilegal sem o consentimento da comunidade nem uma apropriada Avaliação do Impacto Ambiental.

A reserva de Iguobazuwa abriga uma população de mais de 20.000 agricultores, 85% dos quais dependem da densa floresta para seu sustento diário. A floresta é rica em biodiversidade e inclui animais como macacos, antílopes, aulacodos (roedores tropicais), tartarugas, caracóis e aves. Iguobazuwa era também o local de cultivo de lavouras alimentícias como mandioca, inhame, banana, abacaxi, melão, milho e hortaliças tanto comestíveis quanto medicinais.

As comunidades dos arredores da floresta de Iguobazuwa são Aifesoba, Iguoriakhi, Igueihase, Ora, Amienghomwan, Ugbokun, Obaretin, Obosogbe, Okoro e Iguobazuwa. Apesar de as terras florestais pertencerem legalmente ao governo, em 1972 as comunidades obtiveram direitos sobre elas, sendo que algumas partes das florestas alocavam-se em forma rotativa aos membros da comunidade para serem usadas como terras agrícolas.

Em dezembro de 2007, a Michelin clareou com buldôzeres 3.500 hectares de florestas bem como as terras agrícolas da comunidade, sem dar qualquer compensação à comunidade afetada. Os moradores locais ficaram, da noite para o dia, com suas duas fontes de sustento- florestas e terras agrícolas- completamente destruídas. As comunidades de Iguobazuwa perderam tudo.

Em maio de 2008, a empresa começou a plantar as árvores de borracha. Mesmo que as árvores estejam ainda em estágios iniciais, as comunidades também deverão enfrentar os impactos adicionais decorrentes das próprias plantações, como mostra a experiência em muitos outros países.

“Dois anos depois da morte de meu marido, comecei a cultivar… a Michelin chegou com seu maldito buldôzer e destruiu tudo o que tinha plantado. Estava chorando… estava tentando detê-los; eles ameaçaram com empurrar-me com suas máquinas se eu não os deixasse passar.”

Mulheres agricultoras agora sem emprego…

A chegada ultrajante da Michelin à floresta de Iguobazuwa depois de 300 anos de coexistência pacífica entre as comunidades só trouxe fome, mal nutrição, doenças, pobreza, poluição do ar e da água, erosão do solo, deslocamentos sociais, aumento de vícios sociais, alteração das antigas práticas tradicionais, falta de lenha e de carne de caça.

As roças destruídas tinham produzido diversas culturas alimentícias:
Eu tinha dois acres de terras agrícolas e plantava mandioca, banana, abacaxi, mangarito e pimentão. Agora, a roça desapareceu e já não tenho nenhuma fonte de alimentos nem de meios de vida’. (Mulher da aldeia Aifesoba)

A maior parte das mulheres que partilharam suas experiências disse que é comum que os homens preparem a terra para plantar e as mulheres tomem conta de todas as outras atividades desde a cultura até a colheita. Por isso são as mulheres as que usam a terra para o cultivo de lavouras. Agora, com suas roças destruídas, as mulheres devem tornar-se trabalhadoras de outras roças na floresta ou em aldeias vizinhas que ainda não foram afetadas pela avassaladora Michelin enquanto outras ficaram sem trabalho e famintas.

A Michelin destruiu nossas roças. Sofri com isso. As roças providenciavam alimentos para nossas famílias. Eu podia ajudar no pagamento da mensalidade da escola de meus filhos. Queremos que nos paguem por nossas lavouras e terras agrícolas. Eles deveriam deixar que nossas terras fossem nossas. Queremos que nossas terras sejam devolvidas. Nossas vidas dependem disso. Agora nós não temos emprego.Não mais folhas amargas, folhas de água nem folhas de abóbora. Meu marido tem estado sem trabalho durante anos; não podemos depender de nossos maridos para tudo. Queremos que a Michelin nos compense… o valor é muito alto para ignorá-lo . (Mulher da aldeia Aifesoba)

… e sem uns trocados

É comum que as mulheres consigam dinheiro da produção de suas roças vendida no mercado local. Por isso, o roubo de suas roças afetou seriamente as mulheres da aldeia já que muitas das responsabilidades pelo sustento da família recaem nelas, e então elas não têm outra opção a não ser recorrer a trabalhos servis a fim de sobreviverem.

Será que estas pessoas nos impulsionam a sair a roubar?  Eles se apropriaram de minha terra de quatro acres e da fonte de sustento de minha família. Eles me afastaram da roça enquanto eu ainda estava trabalhando sem nenhuma explicação nem compensação. Meu marido perdeu o emprego como motorista na cidade e temos quatro filhos, que estão fora da escola por não podermos pagar as mensalidades da escola. Mulher da aldeia Aifesoba.

A maior parte das mulheres agora está envolvida na agricultura de subsistência em pequena escala dentro de suas instalações. Algumas compram as lavouras de mandiocas para processá-las e vendê-las quando amadurecem.

As mulheres que cuidam da família em problemas

Além de tomar conta do uso da água para as atividades domésticas, do fornecimento de vestimentas e da coleta de frutas e sementes, as mulheres são responsáveis pela coleta de plantas medicinais que são vitais para as práticas tradicionais das comunidades locais vinculadas com a saúde. O fato de a floresta ter desaparecido provocou que muitas mulheres devam caminhar longas distâncias- sendo a mínima de cerca de 15 km- para conseguirem ervas com as que tratam algumas doenças.

Estou grávida e doente, e não temos onde encontrar as ervas. Antes, íamos à mata e coletávamos ervas para curar todo tipo de moléstias. Você sabe que há algumas doenças que não podem ser curadas com a medicina ortodoxa; mas agora não temos acesso a elas porque a Michelin arrasou nossas florestas. Você pode ver que minhas pernas estão inchadas; à diferença de outras vezes em que engravidei, já não posso conseguir aquelas ervas que eram tão efetivas para mim. (Mulher em avançado estado de gravidez de Aifesoba)

Omo diz uma mulher de Iguoriakhi:

Só sabemos que a Michelin está causando os  prejuízos. São as pessoas que nós vemos. No passado nos alimentávamos da floresta; nossa vida depende da floresta. Há muitas pessoas em minha comunidade que nem sabem onde estão os hospitais porque é a floresta a que providencia os remédios necessários.

Uma mulher de 83 anos da comunidade Iguobazuwa explica a situação da seguinte forma:

Tenho morado em Iguobazuwa durante 65 anos. Sempre ia à floresta e arrancava as ervas medicinais para tratar meus filhos quando ficavam doentes. Foi na floresta que eu consegui as folhas medicinais que tomei toda vez que engravidei.

As mulheres se levantam por seus direitos

As mulheres sabem que não há nem haverá nada de bom como resultado das atividades da Michelin em suas terras. E começam a organizar-se e a procurar apoio. Elas querem que suas terras sejam devolvidas, que suas árvores sejam replantadas, e também querem ser plenamente recompensadas por suas lavouras destruídas.

Estão decididas a empreender ações, passeatas de protesto e manifestações contra a Michelin Nigéria a fim de que suas exigências sejam cumpridas opondo-se de todas as formas às plantações de árvores em larga escala em seus territórios.

“Se eu decidisse, eu impediria que eles comprassem nossas terras para as plantações de borracha…Se eu decidisse, eu arrancaria toda a plantação de borracha com minhas mãos… Eles deveriam deixar nossas terras para nós.”

Para isso, elas precisam superar alguns problemas. Enoma Oduwa, da comunidade Iguobazuwa, diz:

No passado, tínhamos um grupo de mulheres mas agora já não existe. Esse é um dos motivos por que não podemos enfrentá-los como um grupo. Sem unidade não há resistência!

Tradicionalmente, as mulheres Iguobazuwa não têm participado de nenhuma forma de resistência, até recentemente quando algumas mulheres e alguns homens das comunidades Aifesoba e Obosogbe se engajaram em uma passeata de protesto na cidade de Benin para denunciarem as atividades da Michelin em seu município.

Mais recentemente, as mulheres têm adotado um comportamento mais assertivo para conhecer e exercer seus direitos, o valor de sua floresta e como se tornar mais ativas no processo da tomada de decisões quando estiver relacionada a práticas de bom manejo florestal em seus municípios.

Na comunidade Aifesoba, as mulheres- acompanhadas de homens- engajaram-se em uma passeata de protesto na área florestal onde os caminhões e buldôzeres da Michelin estavam cortando as árvores. Conseguiram que parassem de trabalhar em duas ocasiões; na terceira vez a Michelin conseguiu mobilizar policiais que os protegessem e intimidassem e enxotassem as pessoas da comunidade. Como resultado, algumas mulheres de outras comunidades agora receiam empreender qualquer ação para enfrentar a Michelin já que temem ser maltratadas, intimidadas ou assediadas da mesma forma em que as pessoas comunidade Aifesoba foram tratadas.
Em conseqüência do workshop de dois dias realizado nos dias 4 e 5 de novembro de 2008, a Michelin chamou alguns membros de duas comunidades (Aifesoba e Iguobazuwa) das nove comunidades diretamente afetadas, e pagou uma compensação. Um grupo de Iguobazuwa foi completamente recompensado enquanto a outra comunidade de Aifesoba recebeu o que eles descreveram como uns trocados já que está muito longe do tamanho da destruição e não era proporcionado com o valor das lavouras destruídas.

No final do workshop, as mulheres publicaram um comunicado em que exigem uma série de ações urgentes. Entre elas, exigem que o atual governo do Estado de Edo revise a venda da reserva florestal de Iguobazuwa, que a Michelin Nigéria devolva suas terras e replante cada árvore cortada, que haja  compensações pelas lavouras destruídas, e que a invasão de suas florestas por parte da Michelin Nigéria não seja vista como um sinal de desenvolvimento e sim de empobrecimento, já que suas vidas e meios de sobrevivência têm sido colocados em risco. Exigem também que a expansão em suas terras da floresta Iguobazuwa sejam detidas.

Mas o que é mais importante é sua determinação para conseguir reaver suas terras.

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