por Carlos Café

http://vidaevoz.files.wordpress.com/2006/12/montanha.jpg«Uma ética da responsabilidade implica que os ecologistas não sirvam a ecologia superficial, mas sim o movimento da ecologia profunda.»

ARNE Dekke Eide NAESS nasceu em Oslo, na Noruega, a 27 de Janeiro de 1912. É conhecido como filósofo, alpinista e, principalmente, como pensador e activista ecológico.

Verdadeiro espírito ecléctico, Naess conjuga de forma original Espinosa, o Budismo, o pensamento de Gandhi e o Taoísmo, entre outras influências. Escreveu inúmeros livros e artigos sobre diferentes áreas, cuja selecção pode ser encontrada numa obra em 10 volumes intitulada precisamente «Selected Works of Arne Naess». Estudou em Paris, Viena e Oslo, em cuja universidade viria a ser o mais jovem professor agregado de sempre, com apenas 21 anos. Proferiu conferências um pouco por todo o mundo, coordenou projectos para a UNESCO e foi distinguido com inúmeros prémios, de que se destaca, talvez, o Nordic Prize, atribuído pela Academia Sueca.

A sua produção filosófica privilegia as áreas da Lógica, Filosofia da Linguagem e Filosofia da Ciência. Foi professor de Filosofia na Universidade de Oslo até 1970, altura em que resigna ao lugar para poder dedicar-se de corpo e alma ao activismo ecológico, a grande paixão da sua vida. No Verão desse mesmo ano, envolve-se numa acção de protesto que elucida bem o modo empenhado como encara as questões ecológicas. De facto, conjuntamente com outros activistas, Naess acorrenta-se aos rochedos defronte a Mardalsfossen (uma queda de água num fiorde norueguês), recusando-se a sair até que os planos de construção de uma barragem para aí projectada fossem suspensos. Este episódio, que envolveu cargas policiais e viria a dar origem a um documentário em filme, ajuda-nos a compreender até que ponto a personalidade de Naess influenciou alguns movimentos ecológicos mais radicais (o Greenpeace, por exemplo).

Arne Naess é o «padrinho» e o principal ideólogo de uma corrente contemporânea do pensamento ecológico, conhecida como «movimento da ecologia profunda». A designação surge pela primeira vez num artigo datado de 1973 onde, ao refletir sobre as práticas dos movimentos ecológicos, Naess distingue a abordagem ecológica «superficial» da abordagem mais «profunda». Segundo ele, a ecologia superficial é moderada, ao passo que a profunda é radical (no sentido literal do termo, ou seja, que vai à raiz dos problemas). O que caracteriza, então, o movimento da ecologia superficial é apenas a luta contra a poluição e esgotamento dos recursos naturais, sendo que o seu objectivo principal é apenas a saúde e prosperidade dos habitantes dos países desenvolvidos. E porquê apenas? Exactamente porque Naess considera que tais preocupações, embora louváveis, se revelam manifestamente insuficientes para o combate pela natureza que é imperioso travar. Di-lo-á com toda a clareza no final do célebre artigo: «Uma ética da responsabilidade implica que os ecologistas não sirvam a ecologia superficial, mas sim o movimento da ecologia profunda.»

Quanto à abordagem profunda, a ideia principal é a defesa da necessidade de uma nova filosofia e de uma nova praxis que considere o ser humano como parte integrante da natureza e não como um ser superior investido de direitos exclusivos. Ou seja, em vez da intervenção pontual em relação a aspectos considerados relevantes para os seres humanos actuais e vindouros, propõe-se uma autêntica substituição de paradigma, através de uma radical re-avaliação do papel do Homem na natureza, destronando-o do seu confortável pedestal em favor de um «igualitarismo biosférico».

Lançadas que estavam as «sementes» da ecologia profunda, Naess continuaria a ser a principal referência do movimento. Em Abril de 1984, elabora conjuntamente com o filósofo americano George Sessions uma síntese de quinze anos de pensamento, quando acampavam juntos em Death Valley, na Califórnia. Aí, inventariam os princípios do movimento de maneira até certo ponto neutra, na esperança de virem a ser compreendidos e aceites por pessoas provenientes de diferentes posições filosóficas e religiosas, incentivando os leitores a elaborar as suas próprias versões. Esse texto, que ficou conhecido como «Plataforma da Ecologia Profunda», sintetiza o essencial do movimento, nomeadamente a tese segundo a qual a auto-realização humana passa por uma relação de identificação do Homem com os outros seres (e não por uma imposição do humano sobre os outros seres) e a defesa do igualitarismo biosférico. Destes princípios básicos são, então, deduzidas outras ideias, tais como a necessidade de um preservacionismo radical da natureza, o anti-antropocentrismo, a defesa do valor intrínseco dos seres, o elogio da biodiversidade ou a inevitabilidade de um forte empenhamento político. Devido ao enorme impacto das suas ideias no debate ecológico contemporâneo e na prática política de muitos dos movimentos ecológicos mais radicais, Arne Naess é, sem dúvida, uma das grandes referências do pensamento ecológico e, talvez, um dos mais influentes filósofos da actualidade. Uma das suas máximas é: Todas as formas de vida têm, em princípio, direito a viver e a desenvolver-se segundo a sua natureza.

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