Já que estão falando em dia do D, dia Carlos Drummond de Andrade, uma vez que em 31/10 era o dia do seu nascimento, nada mais justo que republicarmos tal poema que haviamos postado em maio, em razão das mudanças do código florestal!
… ou não entendem!!!
Em tempo de lei pelo desmatamento…
Sem o lirismo das orquídeas,
Sem o charme decorativo das samambaias,
Nua de liquens e bromélias do litoral,
A mata da Caratinga, protegida dos ventos,
Espera de nós
A proteção maior contra o machado,
A serra mecânica, o fogo.
De cada cem árvores antigas
Restam cinco testemunhas acusando
O inflexível carrasco secular.
Restam cinco, não mais. Resta o fantasma
Da orgulhosa floresta primitiva.
Na mata de caratinga,
Tem paca, tem capivara,
Tem anta e mais jacutinga,
Tem silêncio tem arara,
E nas ramarias densas
De suas copas imensas,
Paira um segredo mineiro
Que dura um século inteiro…
Uma espuma de azul bóia nas névoas da altura,
Um resto de sonho perdura na resina dos caules.
Manhã-quase-manhã, a terra acorda
Do seu sono de perfumes e lianas.
No esforço de fugir à mata obscura,
Bromélias em família buscam luz
E em suas folhas uma gota d’água,
Puro diamante líquido, reluz.
Do japuaçu
No alto da embaúba
Me deixa intrigado.
Ele ri de Quê?
Da mão que derruba
Seu ninho cuidado?
Vou adivinhar:
Se a ave ri, coitada.
É que, por destino,
Não sabe chorar.
A água serpeia entre musgos seculares
Leva um recado de existência a homens surdos
E vai passando, vai dizendo
Que esta mata em redor é nossa companheira,
É pedaço de nós florescendo no chão.
Que rumor é esse na mata?
Por que se alarma a natureza?
Ai…é a moto-serra que mata,
Cortante, oxigênio e beleza.
Não, não haverá para os ecossistemas aniquilados
Dia seguinte.
O ranúnculo da esperança não brota
No dia seguinte.
O vazio da noite, o vazio de tudo
Será o dia seguinte.
Carlos Drummond de Andrade.



























3 comentários
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maio 10, 2011 às 9:30 am
GERALDO A. LOBATO FRANCO
É, A MOTOSERRA: DETROI, MATA, POR ISSO VEM E SERRA.
MAS COMO PODERIAM ESSES PULHAS GOVERNAMENTAIS, ANIQUILADORES DO NOSSO ESPAÇO DE RESPIRAR AR PURO, PENSAR SEQUER UM SEGUNDO NA BELEZA QUE ESTÃO DESTRUINDO E AJUDANDO A DESTRUIR? COMO?
A POESIA JOGA COM O PASSADO PENSANDO NO FUTURO. ELES NÃO: JOGAM COM OS SEUS INTERESSES PESSOAIS MOMENTÂNEOS E NADA MAIS.
SE A LÍRICA JOGA COM O IMAGINÁRIO, ELES NÃO: JOGAM DURO PRA GANHAR SEJA AONDE FOR, SE NÃO AGORA MAIS TARDE NO TAPETÃO DO STF. A PESO DE OURO DO BOLSO DOS CONSUMIDORES QUE POR FIM PAGAM PELA DESDITA.
ESSES CARINHAS SÃO UMA FOTO DA DESGRACEIRA QUE FORAM OS SEUS ANTEPASSADOS: DESTRUIDORES DO PAU-BRASIL E DAS MADEIRAS NOBRES, POLUIDORES DE NOSSOS RIOS MAIS LÍMPIDOS, VENDEDORES DE NOSSO SANGUE DE NATIVOS E DE ESCRAVOS, VERDADEIROS CAPITÃES-DO-MATO QUE NO FUNDO É O QUEREM SER: HOJE CAÇAM OS ESCRAVOS QUE BUSCAM A LIBERDADE, AMANHÃ SAQUEIAM AS TERRAS POR ONDE PASSARAM OS QUILOMBOS.
DEPOIS ANIQUILAM O RESTO E POR FIM A ELES MESMOS, POIS NAO SABEM COMO PARAR: VEJAM O QUE ACONTECEU COM O GRANDE DITADOR MUSSOLINI OU AO OUTRO O ADOLFINHO DAS CANDONGAS . . . VIRARAM SUCATA DE SEUS PRÓPRIOS REGIMES.
ABAIXO COM A MORTE DAS FLORESTAS !!!
VIVA A VIDA !!!
maio 12, 2011 às 9:46 pm
Luiz
oi, lindo o poema, mas acho que não é do Drummond, não.
maio 19, 2011 às 10:59 pm
ONG Cea
Ola Luiz
Tente encontrar de quem é então.
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