
por Vanilda Moraes Pintos
Fiquei muito surpresa e contrariada com a notícia da morte de girafas no zoológico de Sapucaia do Sul e a intenção de adquirirem outros animais oriundos da África para repor o Plantel. Penso que este fato mereça algumas considerações.
Primeiro: estamos vivendo um momento crítico do ponto de vista ecológico/ambiental no qual inúmeras espécies encontram-se em estado de vulnerabilidade devido a desastrada interferência humana;
Segundo: o meio ambiente encontra-se fragilizado e desequilibrado e um número considerável de pessoas engajadas em reverter este desequilíbrio ambiental, clamam em todos os cantos do mundo por uma mudança no modo de encararmos a Natureza e todas as formas de vida nela inseridas;
Terceiro: temos em vista que a mudança para um novo paradigma passe obrigatoriamente por percebermos que a vida dos animais não pode ser encarada como mero objeto de contemplação humana e que merece dignidade e proteção;
Quarto: conscientes da dignidade a que são merecedores os animais, todos eles, deduz-se que é completamente equivocada a visão utilitarista que tende a reduzir os animais a coisas a serem usadas para trazer “entretenimento” e “informação” aos humanos.
Observar animais que foram retirados do seu habitat, expostos em ambientes que não reproduzem nem atendem suas necessidades comportamentais é agressivo e ultrapassado. Isto contraria as mais elementares noções de respeito à vida.
Humanos precisam aprender sim, que existem animais exóticos, mas que estes devem continuar onde estão, vivendo uma vida natural e ecologicamente equilibrada, livre da interferência humana.
Devem aprender que animais exóticos viverem expostos à curiosidade humana em nada lhes beneficia, muito pelo contrário, fere sua dignidade de seres vivos e alimenta a cultura antropocêntrica de que podemos nos servir dos animais para obtermos conhecimento e informação.
Além do mais, a intenção da diretoria do Zoológico em captar uma verba de R$ 10 milhões, tendo em vista a próxima Copa do Mundo de 2014, dos quais, R$ 5 milhões seriam destinados á pavimentação, R$ 2 milhões para área de alimentação e administração e R$ 3 milhões somente, para melhoramento das instalações dos animais, só reforça a idéia explicitada acima, na medida em que é denotada mais preocupação em melhorias para os humanos do que com as vidas que ali são obrigadas a viverem em cárcere permanente.
Dada a diversidade de animais selvagens que ali vivem, suas dimensões e número, certamente que a prioridade desta verba, caso seja liberada, deveria ser para melhoramento de suas instalações.
Logo, conclamo à diretoria do Zoológico de Sapucaia do Sul que reconsidere a intenção de trazerem girafas ou qualquer outro animal, oriundo ou não de outro continente e que busquem sim, investir em enriquecimento ambiental aos animais que lá já se encontram e que, lastimavelmente não podem ser devolvidos à natureza. Que não tentem andar na contramão do progresso, o qual aponta para a aplicação de uma conduta ecologicamente ética, a qual não interfere no ambiente natural e na vida de suas criaturas.
Vanilda Moraes Pintos é veterinária, coordenadora do Grupo Amigo Bicho da Sociedade Vegetariana Brasileira- Rio Grande/RS (vanildamp@vetorial.net)


























3 comentários
Feed de comentários deste artigo
outubro 1, 2010 às 2:04 am
ANDERSON
O PL 7291/2006 que entre outras coisas proibe o USO de animais em circos deveria inspirar PLs a proibição de zoológicos, oceanários e outros empreendimentos que veem o ambiente com uma visão utilitarista. Somos educados com essa visão, governados com essa visão por isso proibir seria o ideal…
outubro 1, 2010 às 7:09 pm
Zoológico: para quê? | Candango Solidário
[...] para quê? Publicado em 01/10/2010 por candangosolidario Lendo um artigo sobre o zoológico de Sapucaia do Sul, no blog da OngCea, coloquei-me a pensar sobre a necessidade e [...]
outubro 2, 2010 às 4:08 pm
silvana santos
Concordo com o texto inteiro! É possível alguma atitude social em relação
a isto? Tipo abaixo-assinaturas através de algum órgão, tipo Avaaz talvez,
p/q se tenha resultado tanto na proibição de próximos animais p/o
cativeiro e no caso tb das verbas p/”melhoria do zoo”?